G.K. Chesterton sobre a única coisa que Deus nos oculta
“Havia algo que era grande demais para Deus nos revelar quando Ele caminhou sobre a terra,” disse Chesterton. É algo que a sociedade de hoje não compreende direito…
Sempre me chamou a atenção o fato de as lágrimas serem consideradas mais sérias do que o riso. Em filmes, pinturas, romances e televisão, são sempre os dramas e tragédias intensas que recebem o rótulo de “arte séria.” Sempre defendi que a comédia também pode ser “arte séria” e que o simples fato de conter leveza e risadas não justifica descartá-la.
Por exemplo, um romancista que eu realmente admiro é P.G. Wodehouse, criador do personagem Jeeves, o mordomo. Wodehouse é um gênio ao lado de qualquer outro grande escritor, mas raramente seu nome aparece nas mesmas conversas que autores como Joyce ou Proust. Às vezes, perguntavam a ele quando finalmente escreveria um romance sério, mas Wodehouse sempre insistiu que suas comédias leves e sem pretensão eram, de fato, sérias.
Joseph Bottum, também fã de Wodehouse, comenta na revista First Things: “Talvez P. G. Wodehouse seja importante justamente por estar disposto a não ser importante. Talvez devêssemos levar a sério o fato de que um dos maiores talentos literários ingleses do século 20 estava satisfeito em usar sua prosa perfeita para nada além da criação de farsas agradáveis, comédias suaves e o jogo da linguagem enquanto ela atravessa um mundo fantasioso eduardiano de tias rigorosas, nobres sem coragem, garotas sentimentais e jovens com polainas.”
Riso de segunda categoria
Uma separação semelhante entre seriedade e riso acontece em toda a vida. Raramente se reconhece o gênio do palhaço da turma, ou se valoriza o olhar perspicaz dos comediantes de stand-up sobre a natureza humana, ou se celebra a abordagem alegre da vida que São Francisco de Assis exaltava. Parece que todas as pessoas sérias estão em algum lugar fazendo declarações de impostos, discutindo política e franzindo a testa diante da perigosa condição humana. Claro, estou exagerando para efeito de argumentação, mas há uma ponta de verdade nisso. Mesmo quando o riso e a alegria são vistos como bens humanos, eles nunca alcançam o mesmo prestígio cultural que outras virtudes.
Não posso deixar de pensar que, pelo menos em círculos católicos, isso acontece porque nunca temos uma descrição bíblica clara de Jesus rindo ou brincando. Ele certamente riu e brincou, mas temos que imaginar isso. Se você me respondesse dizendo que Nosso Senhor jamais contaria uma piada e que não há evidências para afirmar que o fez, eu só poderia dar de ombros e admitir que, não, não posso provar nada. Tudo o que tenho é uma intuição. Jesus é uma pessoa séria, com uma missão séria a cumprir, e é por isso que acredito que Ele riu.

Jesus ocultava sua alegria?
G.K. Chesterton apresenta uma teoria única sobre por que não temos nenhuma prova concreta de Jesus rindo. No final de seu livro Ortodoxia, ele afirma que durante seu tempo na terra Jesus ocultou sua alegria. Esse foi o grande segredo de Cristo. Nos Evangelhos, conhecemos suas lágrimas, sofrimento, paciência diante da traição, gentileza, raiva e perdão. Mas recebemos muito poucas pistas sobre sua alegria. Por que essa seria a única coisa que Ele guardava para si?
Para entender a resposta de Chesterton, é importante saber que Ortodoxia é a história de como seu encontro com o cristianismo foi um encontro com o paradoxo. O coração da nossa fé é a Cruz, o Filho de Deus que sofre e morre, tornando-se a chave para a vida eterna e a felicidade. Esse é um paradoxo que inverte o mundo. Para alcançar uma alegria imensurável, primeiro precisamos estar dispostos a compartilhar o sofrimento de Cristo.
Chesterton observa que isso é justamente o oposto do que a alegria normalmente significa para os não cristãos. Ele descreve a alegria como a “pequena publicidade dos pagãos.” Em outras palavras, muitos proclamam com orgulho que seu único objetivo é estar confortáveis, ricos e bem alimentados. Eles buscam o prazer terreno acima de tudo. O cristianismo, por sua vez, é visto como severo, fazendo muitas exigências e dando prioridade ao sofrimento da Cruz. Isso é pouco atraente, por isso o cristianismo acaba sendo rejeitado em favor da busca pelo prazer.
O paradoxo é que essa busca egoísta e obstinada leva, na verdade, à tristeza. Quanto mais pensamos em nós mesmos, menos felizes nos tornamos. Quanto mais desesperadamente corremos atrás da alegria, mais ela se afasta.
Reservas ocultas
Aqueles que são obcecados pela alegria “escondem suas lágrimas”, diz Chesterton. Eles não conseguem admitir que seus prazeres não os fizeram felizes. Jesus, por outro lado, não tinha medo de mostrar suas lágrimas. Por quê? Porque ele tinha a certeza de que a alegria escondida dentro dele era maior que qualquer sofrimento nesta vida.
Deus possui um reservatório oculto de alegria inesgotável e, um dia, chegaremos ao Céu para mergulhar nele. Enquanto isso, mesmo diante das dificuldades, acabamos experimentando mais alegria do que nunca. São Francisco era alegre porque sofria. Cristo aperfeiçoou a alegria humana por meio do seu sofrimento. Quando seguimos Nosso Senhor, o que parece duro no começo se revela como o caminho para a felicidade.
No entanto, ainda não é o momento da alegria plena. Riso e diversão nem sempre são apropriados, dependendo do contexto em que nos encontramos. Há um tempo para rir e um tempo para chorar. Mas a alegria, em qualquer situação, é algo sério. O riso, o prazer e a diversão podem ser santificadores, um prenúncio da vida que virá. Por isso Deus os esconde; são coisas sérias demais para que possamos experimentá-las plenamente antes do Céu.
Como Chesterton conclui: “Havia algo que era grande demais para Deus nos mostrar quando Ele caminhou sobre a terra; e às vezes imaginei que fosse Sua alegria.”
Fonte: Aleteia.
Rafael Almeida é um buscador da espiritualidade e do autoconhecimento, dedicado há mais de uma década a estudar, praticar e viver experiências que promovem a expansão da consciência. Criador do blog Digital Pensar, compartilha reflexões, vivências e aprendizados que unem práticas ancestrais, desenvolvimento interior e a espiritualidade aplicada no dia a dia, sempre com o propósito de inspirar pessoas a se reconectarem com sua essência.

