Missionários Influenciadores

Missionários Influenciadores

O cristianismo enfrenta um problema de imagem — mas influenciadores estão ajudando, um vídeo vertical de cada vez.

A Igreja Católica está tentando recrutar influenciadores — mulheres com perfis de moda e “padres bonitos” — para atuarem como missionários digitais.

Pela primeira vez, o Vaticano reuniu mais de mil criadores de conteúdo na semana passada, em um auditório próximo à Basílica de São Pedro. Eles dançaram, tiraram selfies e filmaram o palco, iluminado com luzes de néon rosa e azul. O Papa Leo apareceu, provocando uma onda de fotos. “Estou em êxtase com essa experiência”, disse Mackenzie Hunter, de 26 anos, natural de St. Paul, Minnesota. Sua conta no Instagram, “acaffeinatedcatholic”, tem cerca de 25 mil seguidores.

O cristianismo enfrenta um problema de imagem. Nos últimos 25 anos, dezenas de milhões de americanos deixaram a fé. Embora essa tendência tenha se estabilizado recentemente, ninguém quer ir a uma festa que parece estar chegando ao fim.

Por isso, as igrejas estão recorrendo a influenciadores para gerar entusiasmo. A cúpula é um exemplo de uma tendência mais ampla: instituições e líderes religiosos estão apostando cada vez mais no evangelismo digital, utilizando as redes sociais para levar sua mensagem às novas gerações. Os influenciadores afirmam que a estratégia está funcionando — e isso pode explicar, em parte, por que algumas igrejas nos Estados Unidos voltaram a receber fiéis após décadas de queda na frequência.

O que está acontecendo?

As igrejas estão recorrendo à internet para alcançar novos públicos. Pastores evangélicos estão levando seus famosos sermões de alta produção para vídeos verticais. A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias tem apresentado uma imagem mais jovem e diversa aos seus 1,4 milhão de seguidores no Instagram.

Alguns influenciadores cristãos veem sua missão como inspirar pessoas — especialmente os jovens — a frequentarem cultos e estudos bíblicos. Outros dizem que seu objetivo é apenas tornar a religião menos isolada e mais acessível. “Fazer o catolicismo parecer algo normal é muito importante para mim”, explicou Eliza Monts, de 26 anos, que mora em Charleston, na Carolina do Sul, e costuma postar vídeos sobre sua vida com o marido.

Um estudo revelou que, entre a Geração Z nos EUA, os homens tendem a ser mais religiosos do que as mulheres. Talvez isso ajude a explicar a popularidade do Padre Rafael Capo, de 57 anos, um sacerdote fisiculturista de Miami que combina fé e condicionamento físico para seus 112 mil seguidores no Instagram. Ele costuma postar fotos levantando pesos e celebrando a Eucaristia. “Tenho tantas histórias bonitas de conversão”, contou ele.

Capo disse que o número de jovens em sua congregação é o dobro do que era antes da pandemia. Ao participar da cúpula de influenciadores do Vaticano, percebeu o alcance de sua influência de uma nova forma. “Jovens do mundo inteiro têm me parado nas ruas de Roma”, afirmou.

Por que isso importa?

Missionários Influenciadores

O evangelismo digital não é novidade. Mas a conferência do Vaticano foi significativa por alguns motivos.

Primeiro, ela representou uma aprovação institucional. Embora muitos membros do clero já tenham recorrido às redes sociais para expressar sua fé de forma pessoal, o Vaticano agora está treinando formalmente jovens para serem missionários online.

Segundo, o evento mostra o compromisso do Papa Leo com a modernização da Igreja. E como ele é o cristão mais conhecido do mundo, essa atitude pode ter impacto além do catolicismo. “Em vez de simplesmente dizer ‘as redes sociais são um lixo, a IA é um perigo’”, observou Raúl Zegarra, professor de catolicismo em Harvard, “a postura é: ‘isso é real, está acontecendo, é uma nova transformação cultural. Vamos encarar isso como Igreja.’”

A cúpula acontece após um ano marcante para o catolicismo nas redes. Houve a morte de um papa e a eleição surpresa do primeiro americano para o cargo. “Conclave”, um filme sobre os bastidores da Igreja, foi indicado a oito Oscars e venceu um (melhor roteiro adaptado). Memes virais transformaram cardeais em celebridades, e grifes passaram a explorar a estética católica. (A Dolce & Gabbana recentemente colocou bispos na passarela.)

Ao convidar influenciadores para Roma, a Igreja está tentando aproveitar esse momento de destaque.

Fonte: The New York Times.