Resenha de Domination, de Alice Roberts – uma história brilhante, porém cínica, do cristianismo
A historiadora humanista dá vida aos objetos de forma notável, mas tropeça ao tratar das pessoas e de suas crenças
Domination conta a história de como um pequeno culto local se tornou uma das maiores forças culturais e políticas da história. Alice Roberts defende a ideia de que o Império Romano continuou existindo de outra forma dentro da Igreja.
Não é uma ideia inédita — afinal, a própria oração fundamental do cristianismo diz “venha a nós o vosso Reino” —, mas Roberts narra o processo a partir da perspectiva de paróquias específicas e até de edifícios. É uma revelação, semelhante a assistir àqueles filmes em stop-motion que mostram uma planta crescendo e florescendo. Há uma parte em que descreve como uma vila romana poderia se transformar em uma paróquia: o celeiro servindo de base arquitetônica, a rede de relações sustentando os vínculos sociais, e até as telhas e colunas reaproveitadas como materiais de construção. Poucos conseguem escrever tão bem sobre a maneira como os objetos falam conosco. Em um trecho, ela relata sua alegria ao compreender o significado de uma lâmpada de barro aparentemente comum encontrada em Carlisle, cujo interior era roxo; no posfácio, há ainda uma belíssima reflexão sobre a história dos sinos.
O livro gira em torno do momento em que o cristianismo se tornou a religião do Império — o Concílio de Niceia, em 325 d.C. Roberts desmonta com paciência as mitificações em torno desse evento crucial para mostrar como uma variedade de interesses concorrentes acabou reunida sob o guarda-chuva de uma Cristologia específica. Ela ilumina a forma como o cristianismo consegue ser, ao mesmo tempo, centralizado e local. Isso continua verdadeiro: um relatório recente da Sociedade Bíblica mostrou que, quando uma igreja fecha, um terço de seus frequentadores nem sequer tenta encontrar outra comunidade. A verdade pode ser universal, mas a lealdade é paroquial.
O problema de revirar os olhos é que você acaba olhando para a direção errada.
O livro (segundo o próprio trailer no YouTube, pelo menos) promete “levantar o véu de segredos que estiveram escondidos à vista de todos” e descobrir quem iniciou o cristianismo e por quê. Sendo uma leitura humanista, já se sabe que esse “quem” e “por quê” dificilmente será Jesus e o perdão dos pecados. E alguns desses segredos, de fato, sempre estiveram bem visíveis. O fato de cristãos servirem no exército romano não será novidade para admiradores de São Sebastião — patrono dos arqueiros, ícone gay e tema de retratos de Botticelli, El Greco, Mishima, Derek Jarman e Louise Bourgeois. Há também uma crítica ousada e contrária a São Paulo, retratado como um trapaceiro “à la Trump” e defensor da estupidez. É divertido, mas não revela mais sobre sua influência do que apontar que Marie Stopes era uma eugenista fervorosa explicaria a atração da contracepção.
Se você busca o humanismo aberto e curioso de Erasmo ou de Ursula K. Le Guin, será preciso recorrer a eles. A abordagem da professora Roberts é bem mais direta. Para ela, qualquer um que pense que a Igreja foi algo “além de dinheiro e poder” sofre de síndrome de Estocolmo. Iluminadores de manuscritos, construtores de catedrais e artesãos dos objetos nos quais a própria autora enxerga tanto encanto seriam todos, segundo essa visão, ou enganadores ou enganados. Num desfecho esplendidamente anacrônico, Roberts deixa de lado a metáfora do império e compara a Igreja a uma corporação, com diretores e CEOs, franquias e um produto a vender. Essa imagem — com sua sugestão de controle centralizado e de um propósito único e inflexível — se aproxima perigosamente de uma teoria da conspiração, ainda que as melhores partes do livro acabem por refutá-la.
Há muito revirar de olhos decepcionado diante daquilo em que as pessoas acreditavam — ou fingiam acreditar. O problema de revirar os olhos é acabar olhando para a direção errada. Um exemplo entre tantos: Roberts é desdenhosa em relação a santos como Columba e Aidan, que optaram por viver em ilhas isoladas, ressaltando que, naqueles tempos, o mar era mais seguro que as estradas, e portanto essas ilhas não eram tão isoladas assim. Mas, na verdade, eles estavam escolhendo a simplicidade não apenas por si mesma, mas como forma de protesto, de cobrança. Sim, é possível ver o castelo de Bamburgh a partir de Lindisfarne — mas não seria justamente essa a questão? O rei em seu castelo ser obrigado a pensar no santo em sua cela toda vez que olhasse das muralhas. Protestar em um lugar realmente isolado seria como gritar “abaixo o patriarcado” em meio a uma colônia de pinguins. É claro que, sob certos ângulos, o cristianismo parece um negócio, mas sob muitos ângulos um golfinho também parece um peixe. Nada, come e vive como um peixe, mas há uma diferença essencial: ele amamenta seus filhotes.
Em 2016, Alice Roberts ousou enfrentar um “boi sagrado” ainda maior que o cristianismo. Em um artigo na Scientific American, ela criticou o próprio David Attenborough por promover a “hipótese do macaco aquático”, rejeitando-a como uma teoria do tudo e, como todas as teorias do tudo, “ao mesmo tempo excessiva e simplista”. Sei disso porque mantive esse artigo sobre a minha mesa por anos. O cinismo também é uma teoria do tudo. Se o humanismo que sustenta a narrativa aqui quiser oferecer mais do que olhares céticos, precisa acolher o fato de que, para citar a própria Alice Roberts de 2016, a realidade é “ao mesmo tempo mais complexa e mais interessante”.
Fonte: Guardian.
Rafael Almeida é um buscador da espiritualidade e do autoconhecimento, dedicado há mais de uma década a estudar, praticar e viver experiências que promovem a expansão da consciência. Criador do blog Digital Pensar, compartilha reflexões, vivências e aprendizados que unem práticas ancestrais, desenvolvimento interior e a espiritualidade aplicada no dia a dia, sempre com o propósito de inspirar pessoas a se reconectarem com sua essência.

