“Deus ama Gaza”: cristãos norte-americanos se reúnem em rara demonstração de solidariedade com a Palestina

“Deus ama Gaza”: cristãos norte-americanos se reúnem em rara demonstração de solidariedade com a Palestina

O evento A Igreja na Encruzilhada tem como objetivo apresentar um contraponto às igrejas cristãs tradicionalmente pró-sionistas.

É início da tarde de 11 de setembro, na pequena cidade de Glen Ellyn, em Illinois, localizada a cerca de 40 quilômetros a oeste do centro de Chicago. Na Parkview Community Church, pelo menos 550 pessoas se reuniram no auditório principal para orar.

Os músicos no palco levantaram todos de seus assentos. Juntos, entoam um hino palestino:

“Yarabba ssalami, im la’ qulubuna salam”: Ó Deus da paz, enche os nossos corações de paz.

Muitos trazem o keffiyeh palestino sobre os ombros, mas a maioria não é de origem palestina. São brancos, negros, asiáticos, hispânicos, árabes — cristãos de diferentes denominações que rejeitam o barulhento sionismo cristão dominante nos Estados Unidos, hoje tão presente que chega a influenciar abertamente as políticas do governo, internas e externas.

Esse é o primeiro dia da conferência inaugural A Igreja na Encruzilhada, criada para atender ao chamado de cristãos que desejam um espaço que funcione como contraponto a eventos como a conferência anual Christians United For Israel (Cufi), que reúne milhares de pessoas cuja prioridade religiosa é a defesa de Israel, acreditando que apenas protegendo-o será possível a concretização da segunda vinda de Jesus Cristo.

“Isso é uma leitura equivocada das Escrituras”, disse Ben Norquist, um dos organizadores do evento que se identifica como evangélico, ao Middle East Eye.

A Cufi afirma ter 10 milhões de membros.

Na Parkview, 800 pessoas se inscreveram para participar presencialmente e virtualmente. Quarenta e cinco por cento delas são evangélicas, informou ao público Daniel Bannoura, idealizador do encontro.

A comunidade evangélica nos Estados Unidos costuma ser tão pró-Israel que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu se reúne com seus líderes antes mesmo de se encontrar com judeus americanos.

“Eu me vejo em profundo desacordo com grande parte da igreja evangélica em relação à Palestina”, afirmou Norquist. “Todo ser humano foi criado à imagem de Deus. Então, para mim, meus valores evangélicos me levam a defender… a plena humanidade e os direitos dos palestinos.”

Sandra Maria Van Opstal, diretora executiva do grupo de ativismo cristão Chasing Justice, disse ao MEE que os sionistas cristãos têm muito mais espaço nos Estados Unidos por um motivo que reflete muitos dos problemas sociais que afligem o país: “As vozes que estão às margens sempre são as últimas a ser ouvidas.”

Van Opstal é uma latina de segunda geração e também se identifica como evangélica.

“Vejo uma geração de jovens líderes, especialmente líderes negros e latinos, pessoas de cor, que perceberam de imediato que [o genocídio de Israel em Gaza] não estava certo”, afirmou. “Viemos de comunidades que geralmente não estão no centro das igrejas… não temos grandes auditórios com 2.000 pessoas, mas isso não significa que não sejamos numerosos nas ruas.”

“Deus ama Gaza”: cristãos norte-americanos se reúnem em rara demonstração de solidariedade com a Palestina

“A igreja é cúmplice”

Dentro do ginásio, vendedores — vários representando organizações cristãs pela paz — oferecem produtos com a marca Palestina, desde camisetas a canecas e livros.

No estande dos Red Letter Christians, adesivos grandes com a frase “Deus ama Gaza” são distribuídos.

Mas os sionistas cristãos — entre eles, de forma destacada, o atual embaixador dos EUA em Israel, Mike Huckabee — há muito defendem que Deus escolhe um lado: o lado de Israel.

“O caminho do império afirma que Deus está do nosso lado, como se [eles] tivessem acesso exclusivo e direitos sobre Deus”, declarou ao público o renomado pastor palestino Munther Isaac.

“Você sabe qual é o maior problema do sionismo cristão? É que nele você não encontra Jesus.”

A presença de Isaac no palco provocou uma calorosa ovação de pé. Seus sermões contra a ocupação, o cerco e o genocídio israelense, publicados online, têm sido muito mais contundentes do que os da maioria dos teólogos nesse tema, e ele é, sem dúvida, o cristão palestino mais conhecido ainda vivendo na Cisjordânia ocupada.

Seu livro, Cristo entre os Escombros, nasceu de dois Natais silenciosos no local de nascimento de Jesus — Belém, sob administração palestina e ocupação israelense —, onde a comunidade não consegue celebrar enquanto as igrejas de Gaza estão em ruínas e seus familiares no enclave são mortos ou retirados de casas desmoronadas.

Mais de 64.000 palestinos já foram mortos desde que a guerra em Gaza começou, após os ataques liderados pelo Hamas no sul de Israel, em 7 de outubro de 2023. Muitos estudiosos acreditam que esse número está muito abaixo da realidade.

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“Apesar das evidências esmagadoras, esse genocídio continua sendo apoiado, justificado e até mesmo negado por alguns dentro da igreja”, afirmou Isaac em seu discurso na Parkview Community Church, na quinta-feira.

“A igreja é cúmplice”, acrescentou, recebendo gritos de “sim!” da plateia.

“O sionismo cristão apresenta um Deus tribal, violento e excludente, vamos chamá-lo pelo que realmente é”, prosseguiu. “Ele substituiu Jesus por um Estado secular e genocida.”

O caminho de Cristo, insistiu, “não é sobre o medo”.

Fonte: Middle East Eye.