América, uma nação cristã?

América, uma nação cristã?

Não existe outro país no mundo onde as palavras “cristão” e “cristianismo” tenham sido tão usadas quanto nos Estados Unidos. Contudo, também não há outro lugar onde as “Boas-Novas”, ou seja, os ensinamentos do Novo Testamento, tenham sido reinterpretados de forma a justificar as ideologias e práticas mais cruéis. Genocídio, escravidão, racismo, segregação, exploração capitalista implacável, guerras e outros horrores foram racionalizados e legitimados em nome do cristianismo, embora essa fé não apenas não tenha relação com tais atos, mas esteja em oposição total a eles.

A tendência norte-americana sempre foi procurar, em algum versículo bíblico isolado, uma base que confirme e apoie crenças e atitudes condenáveis, em vez de assumir a mensagem cristã em sua totalidade. Por isso, nos Estados Unidos — sobretudo entre igrejas protestantes — encontramos mais especialistas em citar passagens da Bíblia do que mensageiros do espírito e do ensinamento do Evangelho.

Quando a Escritura é fragmentada e analisada de modo a extrair apenas trechos que respaldem práticas e convicções pessoais, perde-se o verdadeiro sentido global da mensagem. E, como consequência, o próprio anúncio cristão também se esvazia e se perde.

Como qualquer teólogo cristão poderia afirmar, o cristianismo é ao mesmo tempo um acontecimento religioso e moral. Em outras palavras, trata-se de uma realidade que exige tanto fé quanto prática. Quando se insiste apenas na primeira e a segunda é reduzida a simples formalidade, o cristianismo deixa de ter relevância prática na vida cotidiana. É verdade que São Paulo declara: “…pela graça sois salvos mediante a fé… não por obras…” (Efésios 2:8-9); e também: “sabendo que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas pela fé em Jesus Cristo” (Gálatas 2:16). Contudo, o próprio Paulo, nesse mesmo capítulo, afirma a necessidade de “praticar boas obras”. Sua mensagem, portanto, é clara: os cristãos são salvos somente pela fé, e nenhuma quantidade de boas obras pode garantir salvação por si só. No entanto, como ele mesmo enfatiza, os cristãos — e, por extensão, toda a humanidade — são “obra de Deus, criados para realizar as boas obras que Ele de antemão preparou” (cf. Efésios 2:10). Ainda que Paulo subordine as obras à fé, ele jamais declarou que fossem desnecessárias à vida cristã. A ênfase posterior de Lutero e de seus seguidores na “fé somente” (sola fide) surgiu muito depois e nem sempre foi aplicada de maneira positiva.

Se o cristianismo se reduzisse apenas a crer intensamente, sem dar a devida importância à condição pecadora e às próprias ações, como sugere a conhecida frase de Lutero — “peque fortemente, mas creia e regozije-se em Cristo mais fortemente” —, então o que diferenciaria um cristão de alguém que segue outra religião, senão o sistema de crenças adotado? Poder-se-ia até afirmar que, nesse caso, o cristão não se distinguiria em nada de um pagão ou de um descrente, exceto pela fé em um sistema diferente.

Prefiro pensar, ao contrário, que a verdadeira marca de um cristão deve ser o empenho em viver de acordo com os mandamentos morais e os exemplos dados pelo próprio Jesus (“Sede perfeitos como eu sou perfeito”. Mateus 5:48). É evidente que a fé sustenta toda a sua vida, mas não deve ser o único elemento que a define ou o seu propósito exclusivo.

Quando se coloca todo o foco no princípio da sola fide, corre-se o risco não apenas de negligenciar o crescimento moral individual, mas também o desenvolvimento ético da sociedade e do Estado. Ainda pior, essa visão pode levar à tolerância — ou até mesmo à legitimação — das ações mais cruéis, depravadas e perturbadoras cometidas por indivíduos e pela coletividade. Embora essa crítica possa ser dirigida com razão às confissões cristãs que nasceram da tradição teológica da “salvação somente pela fé”, é fato que outras, que destacam a importância das “obras” na vida cristã — como a Igreja Católica Romana — não apresentaram resultados melhores nos Estados Unidos ou em todo o continente americano.

Em resumo, nos Estados Unidos o que não falta é sola fide. Todos os domingos, igrejas se enchem de fiéis enquanto pastores e padres pregam sermões; coros e congregações oram, cantam e até dançam, todos com a esperança de alcançar um dia a felicidade eterna. Mas será que é isso realmente o que Jesus quis dizer quando afirmou: “o reino de Deus está entre vós” (Lucas 17:21)? Se compreendo corretamente essa célebre passagem, significa que sempre que os seguidores de Cristo o reconhecem como cabeça de sua sociedade ou nação, aí o seu reino já está presente. Nesse caso, a paz, a harmonia, o amor fraterno e a caridade deveriam ser os princípios orientadores.

Infelizmente, a realidade mostra o contrário. Onde quer que os cristãos se reúnam em nome de Jesus Cristo, muitas vezes estão ocupados em praticar exatamente o oposto do que Ele ensinou. De fato, aqueles que mais se esforçam em se apropriar com exclusividade do título de “cristãos” são justamente os que menos parecem compreender as Boas-Novas. Suas ações, mais do que suas palavras, revelam essa contradição.

Hoje, algumas denominações americanas criaram um termo ao mesmo tempo contraditório e enganoso: “nacionalismo cristão”. Se essa expressão tivesse surgido com o propósito de realizar neste mundo o “Reino de Deus”, no sentido que Jesus deu a ele, teria sido acolhida por todos os cristãos que buscam renovação. No entanto, como se percebe, ela nada tem a ver com o cristianismo e tudo a ver com o nacionalismo branco. É desanimador ver novamente a palavra “cristianismo” ser sequestrada para significar justamente o oposto do que representa. Nenhum tipo de nacionalismo pode se inspirar nos ensinamentos de Jesus Cristo. Como disse São Paulo: “Não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher, pois todos vós sois um em Cristo Jesus” (Gálatas 3:28). O chamado nacionalismo cristão é apenas mais uma invenção de pessoas que jamais compreenderam o que realmente são as Boas-Novas.

O que teria o cristianismo — uma fé fundamentada na moralidade do Sermão da Montanha — a ver com segregação racial, políticas de exclusão, exploração desumana, perseguição e encarceramento de imigrantes, desprezo e crueldade para com os pobres, além do apoio a partidos cuja razão de existir é manipular “cristãos” em favor de uma agenda capitalista extrema? Toda vez que um suposto cristão se esforça para pregar o sermão mais eloquente ou cantar o hino mais belo, deveria antes se perguntar: o que fiz eu pelos menores dos meus irmãos?

É natural sentir-se ofendido, preocupado ou até enojado quando uma nação se apresenta orgulhosamente ao mundo como “cristã”, enquanto sua história revela a expropriação de um continente inteiro por meio do genocídio, a construção de imensa riqueza através da escravidão, a contínua marginalização de minorias e a intimidação global com seu poderio econômico e militar. Se esses são os frutos do cristianismo, então talvez eu tenha compreendido totalmente errado a sua mensagem central.

Fonte: Borkena.