Não é tanto que o cristianismo seja ocidental, mas que a cultura ocidental tem, em sua essência, bases cristãs.
Duas descobertas recentes destacam a rapidez e o alcance impressionante da expansão do cristianismo no primeiro século. Elas também desafiam a antiga suposição de que o cristianismo seria algo exclusivamente ocidental.
Em setembro, arqueólogos egípcios anunciaram a descoberta de um mural de 1.600 anos retratando Jesus curando enfermos. A presença cristã no Egito, é claro, remonta a tempos muito antigos — a própria Bíblia menciona o período em que Jesus viveu ali com sua família, e a Igreja está presente no país desde a era dos apóstolos. O que é menos conhecido, porém, é o quão cedo e quão amplamente o cristianismo se espalhou pela Arábia.
Em agosto, os Emirados Árabes Unidos anunciaram a descoberta de uma placa de estuque de 1.600 anos com uma cruz cristã. Ela foi encontrada na ilha de Sir Bani Yas, próxima a Abu Dhabi, entre os restos de um mosteiro descoberto originalmente em 1962. Essa placa representa uma descoberta importante, já que faz parte da primeira grande escavação arqueológica realizada no local. Ela revela um aspecto frequentemente esquecido da história: como a Igreja Nestoriana do Oriente — com centro no que hoje é o Irã e o Iraque — difundiu o cristianismo pela Península Arábica entre os séculos IV e VI. O mosteiro foi abandonado após a ascensão do Islã, no século VIII, e acabou caindo no esquecimento.
Assim como esse mosteiro, vastas partes da história cristã também foram amplamente esquecidas. O cristianismo costuma ser visto como uma religião ocidental, e sua expansão é geralmente lembrada apenas dentro dos limites do Império Romano. No entanto, até o ano 1000, havia mais cristãos fora do antigo Império Romano do que dentro dele.
Missionários cristãos chegaram ao Império Persa — antigo inimigo de Roma — no século II e rapidamente estabeleceram uma igreja ali. No século IV, após a conversão de Constantino, o temor de que os cristãos pudessem se aliar a Roma levou a uma severa perseguição, mas o cristianismo acabou recebendo reconhecimento legal no século V.
Missionários persas que percorriam a Rota da Seda fundaram igrejas por toda a Ásia Central. A primeira missão foi para a Báctria, no ano 196 d.C. Por volta do ano 500, missionários foram enviados aos hunos. Durante esse período, tribos inteiras de turcos e mongóis se converteram ao cristianismo, e a Ásia Central abrigou comunidades cristãs florescentes que se tornaram centros de ensino e cultura. Por volta do ano 650, já havia pelo menos vinte bispos na região e metropolitas em Caxgar e Samarcanda.
No início dos anos 600, um missionário persa chamado Alopen chegou à China. Ele foi recebido com hospitalidade pelo imperador, que lhe permitiu fundar um mosteiro na capital. O cristianismo passou então a ser reconhecido como uma religião legal no país pelos dois séculos seguintes.
Toda a região foi conquistada por Chinggis (Gengis) Khan no início dos anos 1200. Embora tenha crescido em um clã cristão, Gengis Khan era xamanista. Ainda assim, demonstrava tolerância religiosa e mantinha uma relação amistosa com os cristãos. Nas gerações seguintes, vários líderes mongóis importantes também se converteram ao cristianismo.
Tudo isso mudou quando alguns dos canatos se converteram ao islamismo. As igrejas da Ásia Central começaram a entrar em declínio, e seu fim definitivo veio após a Peste Negra, quando as comunidades cristãs foram transformadas em bode expiatório pela epidemia.
Naturalmente, foi o apóstolo Tomé quem primeiro levou o Evangelho à Índia, estabelecendo igrejas ao longo da costa de Malabar. Essas comunidades cristãs mantiveram uma identidade distinta, convivendo lado a lado com mercadores judeus e com a sociedade hindu. Por volta do ano 300 d.C., a igreja indiana passou a se relacionar com a Igreja do Oriente — em parte graças à Rota da Seda e a outras rotas comerciais, e em parte por compartilharem a mesma língua litúrgica, o siríaco. Com o tempo, a igreja indiana ficou sob a autoridade dos bispos da Igreja do Oriente. A atual Igreja Mar Thoma, na Índia, é herdeira direta dessa longa trajetória histórica.
Tadeu e Bartolomeu levaram o Evangelho à Armênia no primeiro século, e comunidades cristãs já estavam estabelecidas ali no segundo século. Apesar da perseguição imposta pela monarquia zoroastrista, as igrejas cresceram com o apoio de missionários vindos da Pérsia e da Mesopotâmia. No fim, a Armênia se tornou o primeiro reino a adotar oficialmente o cristianismo, no ano 301 d.C., doze anos antes de Roma.
Por volta de meados do século IV, um sírio chamado Frumêncio foi ordenado pelo patriarca copta de Alexandria e enviado para evangelizar o reino de Axum, localizado onde hoje é a Etiópia. Ele atuou como tutor do rei Ezana, que também se converteu. Juntos, eles trabalharam na propagação da fé cristã, transformando Axum no terceiro reino cristão da história, depois da Armênia e de Roma. A Etiópia continua sendo, até hoje, um país de maioria cristã.
Não é surpreendente que artefatos dessa rica história continuem sendo encontrados, mas cada descoberta serve como um lembrete de como o cristianismo se espalhou pelo mundo. Também nos recorda que não é tanto o cristianismo que é ocidental, mas sim que a cultura ocidental tem, em sua essência, raízes cristãs.
Fonte: Times Free Press.
Rafael Almeida é um buscador da espiritualidade e do autoconhecimento, dedicado há mais de uma década a estudar, praticar e viver experiências que promovem a expansão da consciência. Criador do blog Digital Pensar, compartilha reflexões, vivências e aprendizados que unem práticas ancestrais, desenvolvimento interior e a espiritualidade aplicada no dia a dia, sempre com o propósito de inspirar pessoas a se reconectarem com sua essência.

