O Salmo 91 é meu?
Houve uma fase da minha vida em que eu orava o Salmo 91 sobre mim e sobre minha família todas as manhãs como parte da minha rotina devocional. Lembro-me claramente de dirigir de volta de um encontro de oração à beira do lago às 5h30, recitando as palavras:
“Não temerás o terror da noite, nem a flecha que voa de dia; nem a peste que se propaga nas trevas, nem a destruição que assola ao meio-dia. Mil cairão ao teu lado, e dez mil à tua direita, mas não chegará a ti. Somente contemplarás com teus olhos e verás a recompensa dos ímpios.” (Salmo 91:5–8)
Mesmo enquanto eu orava essa oração dentro do meu carro ainda congelado pelo frio, me questionava, em algum canto da minha mente, se essa oração realmente me pertencia como cristão. Segundo a LXX, o Salmo foi escrito pelo rei Davi; Davi era o Ungido do Senhor. Ele foi a antecipação do Antigo Testamento de Jesus Cristo. Como uma flecha disparada ao sol, Davi nos aponta para Jesus, embora por si mesmo fique aquém. Este Salmo era para Davi e, em última análise, para o Filho maior de Davi, Jesus Cristo.
Até o próprio diabo compreendeu a aplicação única deste Salmo a Jesus. No deserto, quando o Senhor estava cansado e faminto, o diabo aproximou-se dele com este Salmo nos lábios. Disse: “Se és o Filho de Deus, lança-te daqui, pois está escrito: ‘Ele dará ordens a seus anjos a teu respeito’, e ‘Eles te sustentarão nas mãos, para que não tropeces em alguma pedra.’” (Mateus 4:6)
Portanto, este Salmo é, em última análise, para e sobre Jesus – então, seria correto eu ter orado essa oração sobre minha família todos os dias, como fiz, por vários anos?
Sim, eu acredito que sim. O Novo Testamento afirma: “Pois, independentemente de quantas promessas Deus tenha feito, todas elas são ‘sim’ em Cristo” (2 Coríntios 1:20).
Gosto ainda mais da tradução que ouvia quando menino: “Pois todas as promessas de Deus nele são sim, e nele o Amém, para glória de Deus por nós” (2 Coríntios 1:20 KJV).
De acordo com o Novo Testamento, tudo o que Deus prometeu ao seu povo foi plenamente cumprido na pessoa de Jesus Cristo. Tudo o que Deus prometeu é SIM e AMÉM em Cristo. Essas bênçãos prometidas agora estão disponíveis para qualquer pessoa – judeu ou gentio – que colocar sua fé em Jesus, como disse o apóstolo Paulo:
“Lembrem-se de que, naquela época, vocês estavam separados de Cristo, alienados da cidadania de Israel e estranhos às alianças da promessa, sem esperança e sem Deus no mundo. Mas agora, em Cristo Jesus, vocês que estavam longe foram aproximados pelo sangue de Cristo.” (Efésios 2:12–13)
Antes éramos estrangeiros, sem nenhum direito legítimo às promessas de Deus, mas agora, por causa de Cristo, esse direito nos pertence. O Salmo 91 pertence a Jesus, e eu pertenço a Jesus; portanto, o Salmo 91 também me pertence! Graças a Deus por sua graça indescritível!
Tendo chegado à conclusão de que este Salmo realmente me pertence, o que ele está oferecendo, exatamente? Vamos analisar mais de perto:
Um refúgio em tempos de dificuldade
Stanley Jaki, em seu livro Praying The Psalms, diz:
“A dinâmica ou lógica que dá estrutura a este Salmo é apresentada duas vezes. Ela consiste nas palavras: ‘Tu disseste: “Senhor, tu és o meu refúgio”.’ Isso é afirmado tanto no início quanto próximo ao final do Salmo. Quase cada verso deste Salmo, de algum modo, parte dessas palavras como ponto de partida.”
O cristão, mais do que qualquer crente do Antigo Testamento, entende o que significa esconder-se em Cristo. O apóstolo Paulo declara: “Porque morrestes, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus” (Colossenses 3:3).
Eu amo isso. Quando Deus olha para mim, Ele vê Cristo. Quando o diabo olha para mim, ele vê Cristo. Eu estou ali em algum lugar, mas todos sabem que, se quiserem chegar até mim, precisam primeiro passar por Cristo.
Aleluia!
Proteção para toda a vida
Os perigos listados nos versículos 3 a 6 representam ameaças que seriam muito difíceis para um ser humano comum evitar. Seja rico ou pobre, forte ou fraco, há pouco que eu possa fazer para me proteger das armadilhas de outros (verso 3a), de doenças (verso 3b), de pestes (verso 6a) ou de ataques demoníacos (verso 5a). Essas são coisas que o Salmo 91 promete que não precisarei temer por causa da proteção do Senhor. Não significa que eu não enfrentarei essas situações, mas sim que não preciso temê-las e que jamais serei abandonado a elas. A mensagem parece ser que nada me atingirá na vida ou na morte sem antes passar pelas mãos protetoras de Deus (verso 4a).
Isso já é suficiente para mim.
Enquanto eu souber que minhas provações são limitadas e aprovadas por Jesus Cristo, estou em paz.
Proteção pessoal
Nos versículos 7 a 10, a ênfase é nitidamente pessoal. É como se Davi estivesse compartilhando sua fé comigo. Nos versículos 1 e 2, Davi fala sobre sua própria confiança em Deus: “Direi do SENHOR: Ele é o meu refúgio e a minha fortaleza, o meu Deus, em quem confio” (Salmo 91:2).
Agora Davi aplica sua fé ao leitor:
“Mil cairão ao teu lado, e dez mil à tua direita, mas nada chegará a ti. Somente contemplarás com teus olhos e verás a recompensa dos ímpios.
Porque fizeste do SENHOR o teu refúgio — o Altíssimo, que é o meu abrigo.” (Salmo 91:7–9)
É como se Davi estivesse convidando o leitor a participar das mesmas promessas que Deus lhe fez como ungido do Senhor. Mais uma vez, o cumprimento final dessas promessas se encontra em Jesus Cristo. A mensagem do Evangelho é que, se estamos em Cristo, também somos contados como filhos de Deus pela fé, e: “Se, pois, somos filhos, somos também herdeiros — herdeiros de Deus e coerdeiros de Cristo” (Romanos 8:17).
Tudo o que Deus concede a Cristo é compartilhado plenamente conosco. Portanto, assim como Jesus podia ter certeza do cuidado e da supervisão pessoal de Deus, nós também podemos — você e eu. Nosso inimigo foi derrotado e despojado de suas armas contra nós. Não há condenação para aqueles que estão em Cristo. Então, o que temos a temer?
Derek Kidner nos adverte quanto à aplicação deste princípio maravilhoso: “Isto é, obviamente, uma declaração de providência exata e minuciosa, não um amuleto contra adversidades.”
O apóstolo Paulo podia assegurar às suas igrejas que “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito”, e ainda assim falar sobre tribulação, aflição, perseguição, fome, nudez, perigo e espada, como em Romanos 8:28-35. Fica claro que a supervisão pessoal e providencial que Paulo descreve não garante isenção das provações terrenas. O que esta passagem promete é que Deus não apenas cuida e vigia “a igreja”, Ele cuida de mim pessoalmente. Isso significa que meu futuro e minha herança estão seguros.
O diabo pode ameaçar, intimidar e tentar, mas não pode tirar aquilo que está guardado com segurança para mim no céu.
Proteção milagrosa
Nos versículos 11 a 13, a ênfase está na proteção milagrosa provida do céu para todos os santos de Deus:
“Pois ele dará ordens a seus anjos a teu respeito, para que te guardem em todos os teus caminhos. Eles te sustentarão em suas mãos, para que não tropeces em alguma pedra. Pisarás o leão e a cobra; calcarás aos pés o leãozinho e a serpente.” (Salmo 91:11–13)
Jesus disse que todos os pequenos de Deus têm anjos designados como intercessores e guardiões. Ele afirmou: “Cuidem para não desprezarem nenhum destes pequenos, pois eu lhes digo que os anjos deles no céu veem continuamente a face de meu Pai que está nos céus” (Mateus 18:10).
Os anjos aparecem regularmente nas histórias da igreja primitiva, frequentemente no papel de servir e proteger os santos de Deus. Quanto à imagem de pisar sobre leões e serpentes, essa simbologia é frequentemente usada na Bíblia para se referir a homens ímpios e poderes espirituais. Veja, por exemplo, Deuteronômio 32:33 e Salmo 58:3–6. A mensagem desses versículos, portanto, parece ser que Deus designou anjos para cuidar da minha proteção e atenção pessoal. Não estou sozinho contra meus inimigos. Não estou sozinho em minhas circunstâncias e provações. As águas não subirão acima da minha cabeça. Para cada tentação, Ele proverá um caminho de escape. E se não houver um caminho, como no caso de Pedro, um anjo será enviado para abrir a porta. Lembre-se de que, quando o diabo caiu, levou consigo apenas um terço dos anjos do céu; portanto, aqueles que estão comigo são mais numerosos do que os que estão contra mim.
Então, a quem temerei?
A promessa pessoal de Deus
Há uma mudança de voz no final deste Salmo, quando Deus fala para garantir aquilo que Davi reivindicou como seu e ofereceu aos fiéis:
“Porque ele me ama, eu o resgatarei; eu o protegerei, pois conhece o meu nome. Ele me invocará, e eu lhe responderei; estarei com ele na angústia, o livrarei e o honrarei. Com vida longa o satisfarei e lhe mostrarei a minha salvação” (Salmo 91:14–16).
Deus promete todas essas bênçãos àqueles que permanecem firmes nele com amor e que “conhecem o seu nome”. Conhecer o nome de Deus significa, em última análise, conhecer quem Ele é e como agiu em Cristo para assegurar nossa salvação. É conhecer Deus na forma em que Ele se revelou no Evangelho. São aqueles que clamam ao Senhor, buscando nele sua salvação. Sobre essa conexão íntima entre suplicante e Salvador, Kidner observa: “No fundo, o vínculo é entre o ajudante e o desamparado, uma questão de graça”.
Posso orar o Salmo 91 com confiança, reivindicando todos os seus benefícios e proteções prometidos, porque Deus, em sua graça, me escolheu. Desde antes da fundação do mundo, Ele me escolheu em Cristo para ser seu filho e compartilhar de sua glória para sempre. Sua força me permite permanecer firme nele com amor. Seu Espírito em meu coração clama: “Abba, Pai” e me ensina a conhecer meu Salvador, a ouvir e compreender sua Palavra. Ele me ajuda a orar e confirma em meu espírito a minha salvação. Em essência – não, de cima a baixo – isto é uma questão de graça.
Graças a Deus!
Pastor Paul Carter
Fonte: The Gospel Coalition.
Rafael Almeida é um buscador da espiritualidade e do autoconhecimento, dedicado há mais de uma década a estudar, praticar e viver experiências que promovem a expansão da consciência. Criador do blog Digital Pensar, compartilha reflexões, vivências e aprendizados que unem práticas ancestrais, desenvolvimento interior e a espiritualidade aplicada no dia a dia, sempre com o propósito de inspirar pessoas a se reconectarem com sua essência.

