O cristianismo está voltando a ganhar vida no Reino Unido.

O cristianismo está voltando a ganhar vida no Reino Unido.

Desde que me lembro, a religião cristã no Reino Unido tem seguido apenas uma direção — rumo à periferia da vida britânica. Os bancos da Igreja da Inglaterra foram esvaziando e envelhecendo. A instituição religiosa passou a pregar uma forma de fé tão insípida quanto possível (basta ouvir o “God slot”, o “pensamento do dia”, transmitido pela BBC Radio 4 todas as manhãs às 7h47). Embora o rei Charles III seja formalmente o chefe da Igreja da Inglaterra e bispos tenham assento na Câmara dos Lordes, isso teve o efeito paradoxal de enfraquecer a religião: os políticos que realmente detêm o poder insistem firmemente que “não lidamos com Deus”, nas palavras de Alastair Campbell, secretário de imprensa do ex-primeiro-ministro Tony Blair.

Ainda assim, há sinais de que as coisas começam a mudar. Uma pesquisa encomendada pela Sociedade Bíblica mostrou que a frequência de jovens adultos às igrejas quadruplicou — passando de 4% em 2018 para 16% atualmente. Diversas figuras públicas de destaque, como Tom Holland — o escritor, não o ator — e Ayaan Hirsi Ali, têm falado abertamente sobre sua fé cristã. O deputado conservador Danny Kruger “falou sobre Deus” ao fazer um discurso apaixonado na Câmara dos Comuns pedindo uma “restauração cristã”. Kruger afirmou que a Grã-Bretanha foi fundada sobre a fé cristã e precisava reviver o espírito que a originou. (Pouco depois de seu discurso, Kruger deixou o Partido Conservador e aderiu ao Reform, de tendência mais à direita.) De forma preocupante, vários manifestantes em uma recente marcha em Londres, organizada pelo ativista de extrema direita Tommy Robinson, carregavam cruzes e entoavam “Cristo é Rei”.

Os cristãos começaram a falar em um “avivamento silencioso” após décadas de declínio discreto. O relatório da Sociedade Bíblica proclamou: “Algo extraordinário está acontecendo.” Por outro lado, progressistas passaram a se preocupar com a possível chegada de um nacionalismo cristão ao estilo americano na vida pública britânica.

Mas será que tudo isso é realmente motivo para entusiasmo — ou para preocupação? A Sociedade Bíblica talvez esteja mais otimista do que o aumento dos números ao longo de sete anos realmente justifica. Kruger fez seu discurso em uma Câmara dos Comuns praticamente vazia, e o líder de seu novo partido, Nigel Farage, é um político dos mais seculares que o Reino Unido já produziu — mais habituado ao balcão de um pub do que ao banco de uma igreja. As conversas sobre o surgimento de uma “direita religiosa britânica”, nos moldes da americana, revelam mais os temores da elite liberal do que a realidade dos fatos.

Ainda assim, algo está claramente acontecendo. O cristianismo ganhou nova vitalidade e começa a bater à porta da vida pública. O pior destino que uma fé antiga pode ter é tornar-se irrelevante para a nação. O cristianismo britânico, ao que tudo indica, já não é mais irrelevante.

Mas o que exatamente está acontecendo? Vários jovens cristãos com quem conversei descrevem um quadro mais complexo de renovação e afirmação da fé. Esse renascimento tem sido impulsionado pelos jovens em geral — e, em especial, pelos homens jovens. Um número significativo de novos convertidos é formado por profissionais instruídos que atuam na economia do conhecimento. Eles frequentam igrejas de destaque, como a milenar St. Bartholomew’s, no centro financeiro de Londres, e a St. John’s, em Hackney. Em Oxford, a St. Aldate’s relata que a frequência dominical semanal ultrapassou em mais de 25% os números anteriores à Covid, chegando a mais de 1.100 pessoas. O cristianismo urbano já não é mais o que era há alguns anos — deixou de ser um fenômeno marginal.

Esses novos convertidos buscam uma versão integral do cristianismo — e não a forma diluída oferecida pelas correntes tradicionais. O anúncio da nomeação de Sarah Mullally como nova arcebispa da Cantuária, em 6 de outubro, foi recebido, salvo pelo destaque dado ao fato de ser mulher, com indiferença. Os jovens convertidos podem divergir sobre preferências litúrgicas — entre o ritualismo tradicional e a emoção do evangelismo moderno —, mas, em geral, desejam uma fé que exija comprometimento intelectual e pessoal, que os confronte com teólogos desafiadores como Santo Agostinho de Hipona e os convoque a uma disciplina espiritual rigorosa. A internet está repleta de vozes que exploram a filosofia sob uma ótica religiosa (como Jordan Peterson) ou que oferecem interpretações teológicas profundas, especialmente de tradições mais exigentes como a ortodoxia grega e o catolicismo romano.

As pessoas que entrevistei relataram jornadas marcadas por promessas quebradas e esperanças frustradas. Criadas em plena era da secularização máxima, suas vidas foram moldadas por uma sequência de crises — da recessão financeira ao confinamento da pandemia, passando pelas tensões raciais e culturais. Muitas não têm condições de alcançar o que seus pais consideravam natural: comprar uma casa, formar uma família ou, em alguns casos, conseguir um emprego. Por trás de tudo isso paira uma crise de sentido. A política reduziu-se a frases vazias, enquanto a internet serve um caldo tóxico de informações e opiniões. Quanto mais a tecnologia moderna oferece gratificação instantânea, mais ela deixa as pessoas vazias e insatisfeitas. Diante disso, por que não recorrer a verdades divinas quando o mundo secular parece tão carente de esperança e significado?

Os convertidos com quem conversei se veem como rebeldes contra um establishment liberal que fracassou. Esse sistema prometera muito — prosperidade através da globalização e harmonia social por meio do multiculturalismo —, mas entregou muito pouco. Se o início dos anos 2000 foi marcado pelos “novos ateus”, como Richard Dawkins, Christopher Hitchens e até Ayaan Hirsi Ali, que pregavam um novo Iluminismo, a próxima década parece destinada a ser moldada pelos moralistas cristãos, que oferecem propósito e sentido em meio a um deserto corroído pela tecnologia.

Mas o que acontece quando essa busca por significado começa a gerar atritos sociais? Esses jovens convertidos têm visões complexas sobre o Islã — assim como Hitchens e Ali. Alguns admiram a forma como os muçulmanos praticantes expressam abertamente sua fé e a levam para o espaço público. Outros, porém, veem o Islã como uma ameaça a uma sociedade que, até agora, teve raízes cristãs. A religião frequentemente se vê envolvida nas tragédias do noticiário — como no recente ataque a uma sinagoga em Manchester, cometido por um britânico nascido na Síria e descrito pela polícia como “influenciado por ideologia islâmica extremista”. Esse tipo de evento tem alimentado o debate dentro do renascente cristianismo britânico: o Islã representa um perigo ou o caminho está em promover mais diálogo entre as religiões? E até que ponto o fervor dos novos cristãos pode aumentar a tensão nesse cenário?

É essa busca por significado — potencialmente conturbada — e não qualquer afinidade com o trumpismo, que define politicamente esse grupo de pessoas. Um número notável de jovens convertidos demonstra curiosidade pelo partido Reform, reflexo de experiências negativas com as legendas tradicionais. A maioria tem valores culturalmente conservadores, pois busca uma base sólida em meio a uma civilização em declínio. Essa é justamente a força de atração da organização britânica Alliance for Responsible Citizens (ARC), de inspiração em “fé, bandeira e família”. O grupo é parcialmente organizado pelo acadêmico de Cambridge James Orr — amigo de JD Vance — e recebe parte de seu financiamento da Edmund Burke Society, sediada nos Estados Unidos. Aproximadamente 4.000 pessoas, muitas delas jovens, participam de seus encontros anuais.

Mas não há garantia de que os jovens convertidos atenderão a esse chamado: a política do renascimento religioso — assim como o próprio fenômeno desse renascimento — ainda está em plena formação. Pode se dissipar com o tempo ou até mesmo se inclinar mais para a esquerda comunitarista do que para a direita.

Muitos jovens cristãos britânicos consideram os símbolos e o estilo da direita religiosa americana algo “constrangedor” — para usar uma de suas expressões favoritas. No centro desse renascimento espiritual está uma redescoberta do que significa ser “britânico” ou até “inglês”: uma rejeição à ideia, comum entre as elites, de que a identidade inglesa é algo pelo qual se deve pedir desculpas. Trata-se de um entusiasmo pela redescoberta da liturgia inglesa e da poesia religiosa do país. Não é apenas nostalgia pelo que foi perdido, mas uma fome indignada por algo que, segundo eles, lhes foi deliberadamente tirado.

“História é agora e Inglaterra”, escreveu T.S. Eliot, um americano que se tornou inglês, em Little Gidding, um poema sobre a permanência da fé. Essa história já não parece seguir de forma tão definitiva rumo à descrença.

Fonte: Bloomberg.