O Papa Leão reafirma o compromisso do cristianismo com os pobres.
CIDADE DO VATICANO (AP) — O Papa Leão XIV criticou o modo como os ricos vivem em uma “bolha de conforto e luxo”, enquanto os pobres sofrem à margem da sociedade, reafirmando em seu primeiro documento de ensino que está em total sintonia com seu antecessor, o Papa Francisco, em questões de injustiça social e econômica.
O Vaticano divulgou o documento na quinta-feira, intitulado “Eu vos amei”, iniciado por Francisco em seus últimos meses de vida, mas nunca concluído. Leão, eleito em maio, atribuiu o texto a Francisco, citando-o diversas vezes, porém afirmou ter feito dele algo próprio e o assinou.
Com cerca de 100 páginas, o documento traça a história da constante preocupação do cristianismo com os pobres — desde as passagens bíblicas e os ensinamentos dos pais da Igreja até as pregações dos papas mais recentes sobre o cuidado com migrantes, prisioneiros e vítimas do tráfico humano.
Leão atribui especialmente às ordens religiosas femininas a realização do mandato divino de cuidar dos enfermos, alimentar os pobres e acolher os estrangeiros. Ele também elogiou os movimentos populares liderados por leigos que defendem o direito à terra, à moradia e ao trabalho para os mais desfavorecidos da sociedade.
A conclusão a que Leão chega é que a “opção preferencial pelos pobres” da Igreja Católica existe desde o princípio, é inegociável e constitui a própria essência do que significa ser cristão. Ele faz um apelo por um compromisso renovado em enfrentar as causas estruturais da pobreza, ao mesmo tempo em que oferece caridade incondicional àqueles que precisam.
“Quando a Igreja se ajoelha diante de um leproso, de uma criança desnutrida ou de uma pessoa anônima em agonia, ela cumpre sua vocação mais profunda: amar o Senhor onde Ele está mais desfigurado”, escreve Leão.
Citando Francisco, uma crítica aos ricos
Leão cita Francisco com frequência, incluindo algumas das declarações mais conhecidas do papa argentino sobre a “economia que mata” e sua crítica à teoria do “gotejamento econômico”. Francisco abordou esses temas desde o início de seu pontificado, em 2013, ao afirmar que desejava “uma Igreja pobre e para os pobres”.
“Deus reserva um lugar especial em seu coração para aqueles que são discriminados e oprimidos, e Ele nos pede, como Igreja, que façamos uma escolha decisiva e radical em favor dos mais fracos”, escreve Leão.
Em sintonia com Francisco, Leão critica duramente a “ilusão de felicidade” derivada da acumulação de riquezas. “Assim, em um mundo onde os pobres são cada vez mais numerosos, vemos, paradoxalmente, o crescimento de uma elite rica, vivendo em uma bolha de conforto e luxo, quase em outro mundo em comparação com as pessoas comuns.”
As frequentes críticas de Francisco ao capitalismo irritaram muitos católicos conservadores e abastados, especialmente nos Estados Unidos, que acusaram o jesuíta argentino de ser marxista.
Em uma entrevista recente, Leão afirmou que esse tipo de crítica equivocada não pode ser direcionada a ele. “O fato de eu ser americano significa, entre outras coisas, que as pessoas não podem dizer, como disseram sobre Francisco: ‘ele não entende os Estados Unidos, ele simplesmente não vê o que está acontecendo’”, declarou Leão ao site católico Crux.
Como resultado, a adesão de Leão aos ensinamentos de Francisco sobre a pobreza e sobre a obrigação da Igreja de cuidar dos mais frágeis representa uma reafirmação significativa — especialmente em seu primeiro documento de ensino.
O espírito de Francisco no texto e em seu lançamento
Autoridades do Vaticano insistiram que o texto é inteiramente de Leão e se recusaram a dizer quanto Francisco havia escrito antes de morrer.
“É 100% Francisco e é 100% Leão”, afirmou o cardeal Michael Czerny, responsável pelo departamento do Vaticano dedicado ao desenvolvimento e aos migrantes, e um dos principais colaboradores de Francisco. Questionado se os mesmos conservadores que chamaram Francisco de marxista ou comunista agora fariam o mesmo com Leão, Czerny observou que ambos estão apenas seguindo o Evangelho.
Esses rótulos “dizem muito mais sobre quem os utiliza”, afirmou Czerny. “O problema não é do Papa Francisco nem do Papa Leão. O problema está em quem usa esses rótulos para rejeitar o ensinamento da Igreja.”
O espírito de Francisco estava profundamente presente tanto no documento quanto em sua apresentação oficial, realizada na quinta-feira.
Além de Czerny, a coletiva de imprensa contou com a rara presença do cardeal Konrad Krajewski, o prelato polonês a quem Francisco confiou a realização de seus atos pessoais de caridade ao longo do pontificado. Sob a supervisão discreta de Krajewski, o Vaticano instalou chuveiros para pessoas em situação de rua na área da Praça de São Pedro, forneceu vacinas contra a COVID-19 para 6.000 migrantes e pessoas sem acesso ao sistema de saúde da Itália, enviou ambulâncias com remédios para a Ucrânia e organizou almoços semanais para os necessitados.
Krajewski afirmou que o documento é a prova de que esses gestos de caridade para com os pobres têm origem direta na Bíblia, lembrando que Jesus não trabalhava das 9h às 17h em um escritório, mas saía à procura de pessoas que precisavam dele.
O cardeal também encantou os repórteres com histórias de suas interações nos bastidores com Francisco, que brincava ao repreendê-lo caso sua conta bancária tivesse muito dinheiro, pois isso significava que ele não havia gasto o suficiente ajudando os pobres.
Assinado na festa de São Francisco
Leão assinou o texto em 4 de outubro, na festa de São Francisco de Assis, o frade mendicante do século XIII que renunciou à riqueza para viver pobre entre os pobres. A data não foi escolhida por acaso.
O saudoso Papa Francisco adotou o nome do santo, e um de seus documentos mais importantes — “Fratelli Tutti” — foi publicado justamente no dia 4 de outubro de 2020.
Leão também parece inspirado pelo exemplo do santo: quando jovem, o então Robert Prevost deixou o conforto de casa para atuar como missionário no Peru, como membro da ordem religiosa agostiniana, uma das antigas ordens mendicantes que coloca a comunidade, o compartilhamento de bens comuns e o serviço aos outros como princípios centrais de sua espiritualidade.
“O fato de alguns desprezarem ou ridicularizarem obras de caridade, como se fossem obsessão de poucos e não o coração ardente da missão da Igreja, me convence da necessidade de voltar e reler o Evangelho, para que não corramos o risco de substituí-lo pela sabedoria deste mundo”, escreve Leão.
Fonte: Bonner County Daily Bee.
Rafael Almeida é um buscador da espiritualidade e do autoconhecimento, dedicado há mais de uma década a estudar, praticar e viver experiências que promovem a expansão da consciência. Criador do blog Digital Pensar, compartilha reflexões, vivências e aprendizados que unem práticas ancestrais, desenvolvimento interior e a espiritualidade aplicada no dia a dia, sempre com o propósito de inspirar pessoas a se reconectarem com sua essência.

