O aprofundamento da sinicização da religião na China

O aprofundamento da sinicização da religião na China

O acordo entre China e Vaticano continua a fortalecer o Partido Comunista Chinês em sua tentativa de submeter o catolicismo no país à ideologia marxista.


Em 29 de setembro de 2025, o secretário-geral do Partido Comunista Chinês (PCC), Xi Jinping, exigiu que fosse acelerado o processo de sinicização das religiões — isto é, sua adequação aos princípios do maoísmo, ideologia que buscou erradicar completamente a fé religiosa por meio da destruição de milhares de templos e da prisão, tortura e assassinato de líderes e fiéis.

O “Imperador Vermelho” pediu explicitamente uma “aceleração” desse processo, descrevendo-o como fundamental para promover “docilidade religiosa, harmonia étnica, harmonia social e estabilidade nacional duradoura” entre as cinco religiões oficialmente reconhecidas pelo Estado: catolicismo, budismo, islamismo, protestantismo e taoismo.

A sinicização nada mais é do que a completa subordinação — ou, mais precisamente, a doutrinação — dos membros pertencentes aos grupos religiosos mencionados à agenda política do Partido Comunista Chinês e à visão marxista sobre a religião. Em um discurso realizado durante uma sessão especial do Politburo do PCC, Xi Jinping defendeu que as “doutrinas, regras, sistemas de gestão, rituais e costumes, normas de conduta” das religiões passem a refletir “características chinesas” e se ajustem “às necessidades do tempo presente”. Ele também pediu a “aplicação rigorosa” das regulamentações e o fortalecimento das diretrizes políticas.

“Devemos conduzir as figuras religiosas e as massas de fiéis”, continuou o autocrata chinês, “a estabelecer firmemente uma visão correta do Estado, da história, da nação, da cultura e da religião, e a fortalecer constantemente as ‘cinco identidades’, para que participem voluntariamente da construção da modernização ao estilo chinês.”

As “cinco identidades” às quais ele se refere são: identificação com a “grande pátria” (ou patriotismo), com a nação chinesa, com a cultura chinesa, com o Partido Comunista Chinês e com o socialismo com características chinesas.

Isso se concretizou em normas controladas pelo Estado que impõem a ideologia do PCC em todos os aspectos da vida religiosa, eliminando de forma brutal quaisquer elementos de fé que entrem em conflito com a agenda política e ideológica de Pequim — marcada por um viés ultranacionalista, ou melhor, comunista.

No centro do controle institucional do Partido Comunista Chinês sobre a religião estão as organizações religiosas nacionais controladas pelo Estado, conhecidas como “associações religiosas patrióticas”. Entre elas estão a Associação Budista da China (BAC), o Movimento Patriótico das Três Autonomias Protestante (TSPM) e o Conselho Cristão da China (CCC), além das notórias Associação Católica Patriótica Chinesa (CCPA) e Conferência Episcopal da Igreja Católica na China (BCCCC).

Os católicos subterrâneos rejeitam a autoproclamada autoridade espiritual da Associação Católica Patriótica Chinesa (CCPA), apoiada pelo governo. Em vez disso, permanecem fiéis à única autoridade legítima: a Igreja de Roma. O acordo provisório firmado em 2018 entre Pequim e a Santa Sé — no qual o Vaticano reconhece a autoridade suprema do governo chinês na nomeação de bispos, cabendo ao Bispo de Roma apenas a aprovação — tem sido um dilema para esses fiéis chineses.

As declarações do secretário-geral não deveriam causar surpresa. Apenas duas semanas antes, em 15 de setembro, a Administração Nacional de Assuntos Religiosos da China (NRAA) havia promulgado um novo texto, inédito em sua minúcia, destinado a ampliar o controle do Partido Comunista Chinês sobre as atividades religiosas online. O documento mirava especialmente — embora não exclusivamente — a Igreja Católica, por duas razões específicas.

Primeiro, o catolicismo possui uma teologia estruturada e sistemática que defende valores ocidentais, como os direitos naturais inalienáveis, o que entra em conflito direto com os objetivos do corpo político do Partido Comunista Chinês. Segundo — e talvez mais relevante —, os católicos, diferentemente das outras religiões, possuem um líder supremo que também é chefe de Estado: o papa. Como disse o falecido líder da República da China (Taiwan), Chiang Kai-Shek: “O céu não pode ter dois sóis.”

O documento da NRAA, intitulado “Regulamentos sobre o Comportamento Online do Clero Religioso”, estabelece uma estrutura rigorosa que determina o que os líderes religiosos podem ou não fazer na internet. O Artigo 3 do regulamento afirma:

O clero religioso deve defender os valores centrais do socialismo, seguir o princípio de independência e autogestão das religiões em nosso país, aderir à sinicização das religiões chinesas, orientar ativamente as crenças para que se adaptem à sociedade socialista e promover a harmonia religiosa, social e étnica ao utilizar a internet.

Somente plataformas administradas por organizações religiosas (templos, igrejas, seminários) registradas pelo Partido Comunista Chinês e devidamente licenciadas para divulgar conteúdo religioso online podem ser usadas para pregações ou ensinamentos de fé. Isso exclui completamente o uso de contas pessoais em redes sociais, transmissões ao vivo, grupos em aplicativos como o WeChat ou fóruns não oficiais para qualquer tipo de instrução ou conteúdo religioso.

Além disso, um sacerdote, por exemplo, deve assegurar que não se perceba que ele esteja aproveitando seu status clerical ou sua notoriedade para aumentar o número de seguidores. Ademais, qualquer divulgação de sites religiosos estrangeiros também é proibida. Assim, seria considerado crime compartilhar, por exemplo, vídeos das audiências gerais de quarta-feira do papa, transmitidas pelo site do Vaticano.

Enquanto as autoridades romanas continuam a promover uma política de Ostpolitik com a China, na esperança de melhorar as relações com o PCC, não podemos esquecer o clamor de milhões de pessoas que continuam privadas das liberdades que valorizamos em nossa sociedade democrática e livre, sem mencionar aqueles que foram perseguidos por expressar sua consciência contra a opressão comunista.

Fonte: Crisis Magazine.