A beleza dá testemunho de Deus.
A sala estava cheia de ternos elegantes e vestidos com estampas florais. Familiares seguravam cartazes feitos à mão, prontos para aplaudir o formando. Mas antes, viria o discurso de formatura.
Um homem idoso, de aparência desleixada, cabelos grisalhos até os ombros, franja, barba espessa e óculos, dirigiu-se ao púlpito. Começou sua fala sem introdução envolvente, e alguns se remexeram nas cadeiras. Então, o orador fez uma observação interessante: a inteligência artificial pode nos dar conhecimento, mas não pode nos transmitir sabedoria. A plateia se inclinou, atenta.
Por que a IA não pode nos conceder sabedoria? Porque, em um mundo quebrado, a verdadeira sabedoria dá testemunho da beleza que vem de além.
Graça da Sabedoria
Embora tendamos a pensar na sabedoria como algo que surge com experiência e sucesso, o apóstolo Tiago afirma que ela tem suas raízes em uma “colheita de justiça” que desce “do alto”. Essa sabedoria é “primeiro pura, depois pacífica, amável, razoável, cheia de misericórdia e de bons frutos, imparcial e sincera” (Tiago 3:17–18).
Viver com sabedoria não significa acumular clichês ou elogios, mas caminhar na justiça. É escolher a misericórdia quando a multidão clama por vingança, responder com gentileza em vez de raiva. A sabedoria caminha tão perto do Sábio Jesus que seu caráter acaba se refletindo em quem a pratica.
O orador de formatura, Malcolm Guite, prosseguiu afirmando que o momento de insight no aprendizado não surge do professor, mas de Cristo, em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento (Col. 2:3). Ele concluiu seu discurso citando alguns poemas originais:
Não posso pensar a menos que tenha sido pensado,
Nem posso falar a menos que tenha sido falado.
Não posso ensinar senão na medida em que sou ensinado…
Vem, Sabedoria oculta, vem com tudo o que traz,
Vem até mim agora, disfarçada em tudo.
Com apitos e cartazes nas mãos, achávamos que tínhamos tudo o que era necessário para celebrar. Nossos corações estavam prestes a explodir de orgulho pelas conquistas dos formandos. Mas descobrimos que precisávamos de poesia. A sublimidade do momento exigia um toque de beleza para despertar uma alegria à altura da ocasião. Ninguém ali, trajado elegantemente, pensou: “O que realmente precisamos nesta formatura é de poesia.” Mas a beleza é mais indispensável do que imaginamos.
Beleza Indispensável
A palestra de Ethan Hawke no TED sobre criatividade inclui estas observações: “A maioria das pessoas não acha que precisa de arte, ou pensa em poesia, até ir a um funeral, perder um filho, um pai, e se perguntar: alguém já se sentiu tão mal assim? Ou quando seu coração explode de amor por alguém, e você pensa: alguém já sentiu isso? Então a arte deixa de ser um luxo e se torna alimento.”
A arte conecta-se ao profundo anseio humano. A beleza tem apelo universal. Mas por quê? Por que somos atraídos por filmes deslumbrantes, pinturas magistralmente feitas, fileiras de tulipas coloridas florescendo e palavras rítmicas e poéticas? Porque a beleza chama para a integridade. Ela sugere que nem tudo permanecerá em ruínas.
Como pessoas feridas pelo mal e pelo pecado, ansiamos por um mundo onde tudo seja restaurado, onde tudo seja belo novamente. A simetria de um pareado rimado, um campo imaculado de flores silvestres, um raio de luz laranja cortando o céu noturno — tudo sugere a possibilidade de completude e glória.
O filme 1917 acompanha dois soldados britânicos durante a Primeira Guerra Mundial em uma missão para entregar uma mensagem que poderia salvar centenas de vidas. Enquanto atravessam a terra de ninguém, o diretor Sam Mendes habilmente nos faz notar a beleza em meio à desolação: uma cerejeira caída e florida contra o pano de fundo da fumaça de destruição à distância; o gesto de bondade de uma mulher para com um soldado ferido em fuga; uma tropa cantando em meio ao lamento de grandes perdas.
Por que Mendes introduz essas interrupções estéticas na paisagem devastada? Porque a beleza em nosso mundo quebrado desperta a crença em um mundo íntegro e completo. A jornada angustiante dos soldados torna-se suportável justamente porque é pontuada por momentos de beleza.
Praticar a Beleza
A arte é assombrada pela beleza, e as coisas belas apontam além de si mesmas para uma beleza mais perfeita. O Salmo 50 diz: “De Sião, a perfeição da beleza, Deus resplandece” (v. 2). Somos chamados a reconhecer a glória deste mundo e remetê-la ao seu Criador.
Uma maneira de testemunharmos a Deus é criando coisas belas—escrevendo poesia que captura o anseio humano, plantando um jardim colorido ou educando filhos com caráter piedoso. A autora bielorrussa Svetlana Alexievich realizou pesquisas extensas e numerosas entrevistas com vítimas do regime soviético para escrever O Tempo de Segunda Mão: Os Últimos dos Soviéticos. Em 2015, ela recebeu o Prêmio Nobel de Literatura por “seus escritos polifônicos, um monumento ao sofrimento e à coragem em nosso tempo.”
Sua crítica aos regimes opressivos russos resultou em um exílio voluntário. Apesar das grandes dores que experimentou, Alexievich escreve: “Quando vejo um jardim em flor, então acredito em Deus por um segundo. Mas não pelo resto do tempo.” A beleza de uma flor consegue provocar até mesmo alguém que sofreu profundamente e documentou angústia humana inimaginável a crer.
Se isso é verdade, não deveriam aqueles que possuem a esperança da nova criação testemunhar a beleza divina plantando jardins belos, cultivando famílias alicerçadas no amor e no respeito, escrevendo versos que capturem a esperança, cuidando de suas vidas e demarcando espaços que possam despertar fé, ainda que apenas por um instante? Quem sabe o que Deus pode fazer florescer a partir da beleza que praticamos?
Testemunhar
A beleza pode nos levar a crer na existência de Deus, mas somente as boas-novas podem conceder fé salvadora. Como escreve Herman Bavinck:
A arte, em todas as suas obras e formas, evoca um mundo ideal diante de nós… [Mas] a arte não pode fechar o abismo entre o ideal e o real. Ela não pode tornar o “lá” de sua visão o “aqui” do nosso mundo presente.
O que, então, preenche a lacuna entre a beleza ideal e nossa realidade dura? Como colocamos o Deus da beleza no coração das pessoas?
Por meio do testemunho. Um verdadeiro testemunho indica às pessoas a direção a seguir. Ele utiliza palavras para transmitir sua mensagem. É por isso que a escrita de Alexievich é tão impactante: não se trata de uma reflexão pessoal sobre os que sofreram na União Soviética, mas de seu testemunho verbal capturado para nós lermos. Da mesma forma, o mundo precisa de testemunhas da beleza de Jesus para ajudar as pessoas a transpor o abismo entre sua realidade difícil e a vida ideal em Cristo. Ainda assim, muitas vezes temos dificuldade em compartilhar o evangelho. Como superar esse desafio?
Meu amigo Ryan voltou-se para a fé em Jesus, mas ainda tinha dúvidas sobre o cristianismo. Então o convidei para se juntar à nossa família em uma viagem de carro. Fizemos o de sempre: cantamos junto com o rádio, corrigimos as crianças quando se comportavam mal e comemos fast food. Para mim, a viagem foi comum, mas anos depois Ryan compartilhou como foi impactante para ele ver nossos filhos interagindo conosco. Ele não estava acostumado ao respeito e ao amor que fluíam livremente. Seu encontro com uma família cristã fundamentada na autoridade e no amor de Deus abalou seu ceticismo e fortaleceu sua fé.
A chave para ser um verdadeiro testemunho é ser tocado pela bela verdade sobre Jesus. Alguma verdade sobre Jesus te impactou recentemente? Você já se surpreendeu com sua graça, se sentiu encorajado pelo seu perdão ou ficou maravilhado com sua beleza? Conte a alguém! Seremos testemunhas do evangelho mais fiéis quando desacelerarmos para absorver verdadeiramente a bondade e a beleza de Jesus. Um verdadeiro testemunho compartilha o evangelho não apenas porque é verdade, mas também porque é uma boa notícia bela. Então, vamos praticar a beleza, apontar para a glória e testemunhar a beleza do evangelho em nosso mundo quebrado.
Fonte: The Gospel Coalition.
Rafael Almeida é um buscador da espiritualidade e do autoconhecimento, dedicado há mais de uma década a estudar, praticar e viver experiências que promovem a expansão da consciência. Criador do blog Digital Pensar, compartilha reflexões, vivências e aprendizados que unem práticas ancestrais, desenvolvimento interior e a espiritualidade aplicada no dia a dia, sempre com o propósito de inspirar pessoas a se reconectarem com sua essência.

