Há um genocídio de cristãos acontecendo na Nigéria?

Há um genocídio de cristãos acontecendo na Nigéria?

Para muitos cristãos nigerianos, a resposta ao título deste artigo é claramente “sim”. Essa visão tem ganhado força em todo o mundo. O político americano Ted Cruz recentemente publicou sobre o assunto em suas redes sociais. Até mesmo Bill Maher, que não é cristão, afirmou recentemente que há um genocídio contra cristãos ocorrendo na Nigéria. Agora, o presidente Trump classificou o país como uma “Nação de Preocupação Especial” e chegou a ameaçar uma intervenção militar direta para proteger os cristãos.

Como sou um cristão nigeriano, amigos estrangeiros às vezes me pedem minha opinião sobre a situação. Minha resposta costuma ser algo como: “é complicado”. No entanto, diante do cenário atual, considero importante aprofundar um pouco mais a explicação sobre a crise na Nigéria. Farei isso em três partes: a primeira resume o que sabemos; a segunda aborda o que ainda não sabemos; e, na terceira, apresentarei algumas formas pelas quais os cristãos de fora da Nigéria podem ajudar.

O que Sabemos

Sem dúvida, um número alarmante de pessoas inocentes é morto diariamente na Nigéria. Estimativas conservadoras indicam que mais de 10.000 pessoas foram assassinadas violentamente apenas nos últimos dois anos. Como alguns líderes nigerianos destacaram recentemente, esses são números de tempos de guerra em um país que, teoricamente, vive em paz. Relatos de massacres em vilarejos remotos tornaram-se quase corriqueiros, a ponto de nem aparecerem mais nas manchetes. Qualquer pessoa que valorize a santidade da vida humana precisa reconhecer que uma tragédia terrível está em curso na Nigéria.

Já escrevi anteriormente sobre a situação de segurança na Nigéria. Como destaquei naquele artigo, há diversos conflitos distintos e sobrepostos ocorrendo simultaneamente no país. Neste texto, concentro-me na crise específica que a maioria das pessoas tem em mente ao falar em genocídio de cristãos. Essa crise está concentrada em uma região da Nigéria chamada Cinturão do Meio. De forma simplificada, é onde o norte, majoritariamente muçulmano, encontra o sul, de maioria cristã. Isso torna a região uma mistura complexa de grupos étnicos e religiões. O conflito no Cinturão do Meio ocorre principalmente entre criadores de gado — em sua maioria muçulmanos da etnia fulani — e comunidades agrícolas, predominantemente cristãs de diferentes origens étnicas.

Uma realidade incontestável da crise no Cinturão do Meio é a destruição de casas, fazendas e propriedades. Além disso, quando as pessoas são forçadas a deixar seus lares por causa dos conflitos, há esforços deliberados para impedir seu retorno ou reassentamento. Um ataque típico não apenas mata inocentes ou os expulsa, mas também resulta na queima de casas, plantações e igrejas depois que os moradores fogem.

Por fim, há um fato bem documentado: embora os imperialistas britânicos tenham derrotado os governantes islâmicos do Califado de Sokoto no início do século XX e passado a controlar a região, os muçulmanos devotos continuaram a compor a elite local e se empenharam em limitar a expansão do cristianismo nessas áreas, incluindo o Cinturão do Meio, que ainda consideram sob sua esfera de influência. Eles tentaram impedir a pregação e conseguiram remover símbolos e sinais cristãos — chegando até a demolir um monumento cultural porque se assemelhava a uma cruz. Em algumas ocasiões, essa hostilidade à influência cristã resultou em perseguições abertas e em surtos de violência direcionados contra cristãos.

O que Não Sabemos

É importante destacar que três dos principais focos de conflito entre agricultores e criadores de gado no Cinturão do Meio — o sul de Kaduna, o estado de Plateau e o estado de Benue — já ocorrem há décadas, remontando aos anos 1970. No entanto, embora esses confrontos fossem ocasionalmente violentos no passado, a situação vem se deteriorando de forma constante ao longo dos anos. Hoje, os conflitos nessas regiões estão fora de controle. Com exceção das grandes cidades, a maioria das áreas rurais tornou-se praticamente ingovernável. Esse cenário, somado às raízes profundas das disputas, alimenta uma intensa desconfiança e uma densa névoa de desinformação.

Para afirmar que há um genocídio de cristãos acontecendo na Nigéria, seria necessário apresentar provas claras de que os agressores e autores da violência têm a intenção específica de destruir o grupo que atacam unicamente por ele ser cristão. No entanto, muitos dos ataques registrados em diferentes partes do país carecem de direcionamento preciso — e os responsáveis pela violência não parecem agir de forma seletiva.

Um grupo de criadores de gado desce sobre um vilarejo remoto em um ataque antes do amanhecer. Eles atiram em qualquer pessoa que encontrem e incendeiam construções indiscriminadamente. Quando o dia nasce, recuam para o mato. Mas quais seriam as motivações por trás desse ataque? Alguns meios de comunicação, simpáticos aos criadores, afirmam que se trata de retaliação por ataques anteriores de agricultores a vilas de pastores — embora os números de vítimas mostrem claramente que as comunidades agrícolas sofrem muito mais mortes, devido ao armamento superior dos pastores. Outros alegam que os agricultores mataram o gado dos criadores, já que as disputas por terras de pastagem continuam em curso.

Naturalmente, assassinos não concedem entrevistas explicando suas intenções. Assim, o aumento nos ataques violentos pode ser interpretado como parte de uma tentativa jihadista de expulsar os cristãos da região. No entanto, é impossível saber com precisão quantos desses ataques — se é que há algum — estão realmente ligados ao extremismo islâmico. Sem prisões e julgamentos dos agressores, é difícil afirmar com certeza. Infelizmente, o governo nigeriano tem falhado gravemente em capturar os responsáveis, o que muitos interpretam como sinal de conivência. Ainda assim, quando lembramos que cerca de 85% dos assassinatos na Nigéria permanecem sem solução (de acordo com os dados disponíveis), esse padrão se encaixa na realidade nacional. Além disso, as suspeitas de colaboração governamental se tornam ainda mais complexas devido ao envolvimento das próprias forças de segurança.

Insistir em uma narrativa ampla — sem dados sólidos e incontestáveis — normalmente leva a conclusões baseadas em nossos próprios vieses e posições, ignorando a complexidade da situação e o quanto ainda permanece obscuro.

O que os Cristãos Podem Fazer?

Aqui estão quatro sugestões simples para cristãos bem-intencionados que vivem fora da Nigéria:

i. Pare de descrever o que acontece na Nigéria como um genocídio

Há um motivo pelo qual a palavra genocídio é reservada para os piores momentos da história — é um dos crimes mais terríveis conhecidos pela humanidade. No entanto, não queremos ser como o menino que gritava “lobo” quando ainda não há certeza sobre o que realmente está acontecendo. Deus nos livre de que algo ainda pior venha a acontecer aos cristãos nigerianos no futuro — quem acreditaria em nós então? É melhor dizer: “há cristãos demais sendo mortos na Nigéria”. Ou, de forma ainda mais abrangente, “há pessoas demais sendo mortas na Nigéria”. Isso ajuda a reduzir o tom polarizado do debate.

ii. Cobrar das autoridades nigerianas uma postura mais séria quanto à segurança

No centro da atual crise está a incapacidade do Estado nigeriano de garantir segurança à vida e proteção à propriedade — uma falha em seu dever mais básico para com todos os cidadãos. Cristãos em todo o mundo devem pressionar seus governos para que ajudem a Nigéria a enfrentar esse problema. A atenção internacional é essencial, mas precisa ser bem informada, sensível às nuances e à longa história de conflitos complexos que o país enfrenta.

iii. Apoiar a Igreja Nigeriana

A igreja na Nigéria precisa urgentemente de ajuda para reassentar cristãos deslocados e reconstruir casas destruídas. Igrejas e cristãos que já mantêm parcerias com congregações nigerianas podem perguntar de que maneiras práticas podem contribuir. Aqueles que ainda não têm laços diretos devem procurar organizações com histórico sólido de apoio a igrejas perseguidas na Nigéria. Isso garante que a ajuda chegue aos mais necessitados e evite consequências negativas a longo prazo.

iv. Orar

Por fim, a ação mais importante é a oração. Os cristãos creem em um Deus todo-poderoso, que vela por seus filhos. Ele não ouvirá o clamor do seu povo? Que os fiéis, tanto na Nigéria quanto em todo o mundo, clamem para que Deus manifeste sua poderosa mão. “Levante-se Deus, e sejam dispersos os seus inimigos; e fujam diante dele os que o odeiam” (Salmo 68:1).

Compreendo que a perspectiva que apresentei aqui possa ser diferente daquela amplificada atualmente pela mídia. Como disse no início, a situação é complexa. Não devemos eliminar as nuances apenas para encaixá-las em uma narrativa. Os cristãos precisam estar comprometidos com a verdade e dispostos a segui-la, onde quer que ela nos leve. Que o nome de Jesus seja conhecido e exaltado em toda a Nigéria, e que as portas do inferno jamais prevaleçam contra os santos remidos por seu sangue na Nigéria (Mateus 16:18).

Fonte: The Gospel Coalition.