A espiritualidade de acionar o freio de emergência
Você nunca sabe o que vai acontecer no metrô de Nova York. Talvez tenha uma viagem tranquila — ou talvez seja surpreendido por uma banda de mariachis, acabe espremido em um vagão cheio de estudantes do interior em excursão, ou precise escalar por cima da bicicleta de um entregador para conseguir sair.
Algumas semanas atrás, eu estava viajando na linha 1. Para quem não conhece suas peculiaridades, a linha 1 é uma linha local que atravessa o Upper West Side de Manhattan — e, convenhamos, vive sua fase decadente. Mais do que em qualquer outra linha que já usei, parece haver atrasos intermináveis, obras constantes ou emergências estranhas acontecendo ali.
Nesse dia em particular, o trem parou de repente entre as estações 86th e 79th Street. Uma voz no interfone informou que havia ocorrido uma emergência em outro ponto do trem. (Mais tarde, amigos que acompanham aplicativos de transporte me contaram que era mais um de uma série preocupante de casos em que alguém aciona o freio de emergência.) A notícia não causou alarde de imediato, mas logo comecei a ouvir os resmungos — nada discretos — de uma senhora no nosso vagão.
Como se a tivesse ouvido, o condutor anunciou pelo interfone que, se não quiséssemos esperar, poderíamos seguir até a frente do trem e descer na estação 79th Street. Embora eu nunca tivesse visto algo assim acontecer no metrô, imediatamente todos se levantaram e formaram fila, como se fosse o mais normal do mundo. Nova-iorquinos sabem se adaptar.
Mas então, nada aconteceu. Ficamos todos parados ali. Embora houvesse razões plausíveis para isso — estávamos na parte traseira do trem, então o movimento seria lento; talvez algum obstáculo ou atraso —, a senhora que resmungava alto começou a gritar com as pessoas à sua frente, mandando que se mexessem. O fato de ninguém reagir só a deixou ainda mais irritada.
No fim das contas, descobrimos que na verdade não estávamos na estação 79th Street, como o condutor havia pensado, e portanto ninguém poderia descer do trem. Restou-nos apenas esperar, enquanto mais algumas pessoas começaram a gritar de vez em quando também. Foi, para uma meia hora, uma experiência um tanto intensa.
Fico pensando se os que gritam no trem não se parecem conosco neste momento — bombardeados por uma enxurrada de emoções intensas e desconfortáveis, sem um lugar claro para colocá-las ou uma forma simples de liberá-las. Será que um passageiro gritando com a MTA é realmente tão diferente dos desabafos, da indignação, das brigas nas redes sociais ou daquela fúria repentina que pode explodir dentro de nós sem aviso?
Imagino que os discípulos e amigos de Jesus tenham sentido um turbilhão semelhante de emoções naqueles dias brutais entre sua prisão, crucificação e ressurreição. Presos em um país ocupado por invasores estrangeiros, pertencendo a uma comunidade dominada por líderes religiosos que haviam conspirado ativamente por sua morte — onde poderiam colocar tudo o que sentiam? Como processar algo assim?
Algumas semanas atrás, eu estava em um bar com amigos. Um desconhecido se aproximou e começou a conversar conosco. Quase de imediato, ele mencionou — sem motivo aparente — que não havia votado nos democratas na eleição federal. Ignoramos o comentário, mas ele continuou repetindo o assunto, sempre com uma risadinha. De repente, eu me vi gritando para que ele fosse embora, sem nem perceber a raiva que estava crescendo dentro de mim.
Vivemos um momento nacional que nos convoca à ação — a defender os direitos humanos e a preservar nossas instituições. Mas, quando se trata de como lidamos uns com os outros, talvez também seja um tempo que exige mais gentileza. Por que tantas pessoas em Nova York estão puxando o freio de emergência, afinal? Talvez, em algum nível, elas sintam uma emergência dentro de si mesmas. Talvez, instintivamente, estejam apenas procurando uma forma de sair, de escapar.
É um enorme desafio agir com bondade ou compreensão diante de quem está descontando suas frustrações. A fúria é como um incêndio florestal — tende a se espalhar rapidamente.
E também é assustador. Admito que, quando as pessoas no meu vagão começaram a gritar com o universo, eu mesma fui para outro. Se estão agindo assim, o que mais podem fazer?
Mas há tantas forças ao nosso redor tentando nos dividir, começando pelos próprios líderes políticos. Talvez o primeiro e mais fundamental ato de resistência seja recusar rejeitar o outro. Se, em vez de apenas perceber o perigo, dermos um passo atrás e olharmos com atenção, talvez consigamos enxergar a dor do outro — e também a luta que compartilhamos. Afinal, estamos todos presos no mesmo trem, procurando algum tipo de saída ou alívio. E, como lembramos na Páscoa, Deus está presente aqui conosco, em nossa comunidade.
Fonte: NCR Online.
Rafael Almeida é um buscador da espiritualidade e do autoconhecimento, dedicado há mais de uma década a estudar, praticar e viver experiências que promovem a expansão da consciência. Criador do blog Digital Pensar, compartilha reflexões, vivências e aprendizados que unem práticas ancestrais, desenvolvimento interior e a espiritualidade aplicada no dia a dia, sempre com o propósito de inspirar pessoas a se reconectarem com sua essência.

