A estranha solidão no funeral de Charlie Kirk
Voei para Phoenix, Arizona, uma semana e dois dias depois de Charlie Kirk ter sido morto em Orem, Utah. Eu queria ver o memorial que sua enlutada organização, a Turning Point USA, estava realizando nos subúrbios do Arizona. Nos últimos nove dias, Charlie Kirk havia passado de celebridade da direita a herói martirizado. Parecia que algo havia mudado em nossa cultura, e imaginei que poderia compreender melhor o que estava acontecendo se comparecesse ao funeral.

No dia anterior ao memorial, fui à sede da TPUSA, no sul de Phoenix. Milhares de pessoas haviam deixado flores, orações, canções, Bíblias, bilhetes e lágrimas ao longo da rua, que estava bloqueada e vigiada pela polícia local. Kirk era dos subúrbios de Chicago, mas havia encontrado um lar nessa cidade ensolarada, onde o notório xerife Joe Arpaio já exercera grande influência. A política no estilo MAGA tinha espaço garantido nos debates locais, enquanto a expansão suburbana criava um ambiente favorável às ambições da TPUSA.
Passei quinze horas na vigília por Kirk, do amanhecer até a noite, conversando com o fluxo constante de pessoas em luto. A maioria tratava aquela rua como um lugar sagrado. O ambiente era silencioso e, às vezes, solene. As pessoas falavam sobre Deus e sobre Charlie na mesma frase. A política parecia distante de seus lábios.

Conheci um homem chamado Tim, que me disse ter sentido um chamado para ir até lá, por isso voou do Nebraska. Ele contou que perder Charlie era como perder um amigo. Disse que Kirk fora uma inspiração para ele — talvez até mais na morte do que em vida. Relatou uma entrevista que havia assistido no YouTube com Erika Kirk, esposa de Charlie. “Ela disse que ele nunca levantou a voz para ela ou para os filhos. Nunca, nem uma vez”, contou. “Cara, isso realmente me fez ver que eu preciso ser um homem melhor, um marido e pai melhor, entende?” Ele gaguejou um pouco, quase se contendo para não falar mais, mas acabou continuando.
“Eu já gritei com minha esposa e meus filhos várias vezes só nesta semana desde que ele morreu”, disse.
No memorial, no dia seguinte, havia um cercadinho montado no meio do asfalto aquecido pelo sol. Cinco pessoas estavam dentro dele, cada uma representando uma causa diferente: Palestina, direitos queer, contra o ICE, contra Charlie, e uma única manifestante contra o aborto que parecia não saber que estava cercada por 100.000 pessoas que concordavam com ela. Achei que talvez estivesse no lugar errado. Após uma hora ou mais de silêncio, ela começou a gritar com as pessoas que aguardavam na fila para entrar no memorial.
“Arcanjo Miguel e os santos do assassinato, eu invoco vocês para levar esses assassinos ao inferno!”
Ficámos todos em silêncio e prestamos atenção.
— Vê onde o ser bonzinho te levou? — ela gritou. — Ser bonzinho te leva a levar um tiro! Chega de ser bonzinho!
Outra mulher, que vinha berrando sobre as alegrias de Cristo para uma manifestante pelos direitos queer, calou-se, virou-se para a pró-vida e disparou: — Ei, para com essa bobagem de bruxaria!
Fiquei pensando em como poderia fotografar algo assim: as bandeiras, os homens de gravata, as mulheres de pé com suas Madonas? Observei as crianças envoltas em braços temerosos. Olhei para as mãos — duzentas mil mãos de cem mil pessoas — recortadas contra o céu, suas sombras nucleares gravadas nas nuvens.
Eu queria que minhas fotos ultrapassassem o brilho do espetáculo, a superfície cintilante da América, mas eu mesma era constantemente capturada pelo fascínio de tudo aquilo. Fotografei um jovem de cabelo curto e gravata, parado com um grupo de pessoas segurando uma bandeira enorme. Por um instante, pensei: consegui — capturei o cruzamento entre a juventude “América em primeiro lugar” e a nostalgia dos anos 1950 que marca este estranho momento da nossa história. Mas, ao olhar a imagem mais tarde, não vi nada disso; era apenas mais uma foto da superfície, do brilho, do reluzente.
A visão que cada um tinha de Kirk — “Charlie”, como todos o chamavam, como se fosse seu melhor amigo — parecia surgir de seus próprios reflexos em um espelho distorcido. “Ele me mostrou que eu precisava ser um homem melhor. Ele me ensinou a ser um cristão melhor. Aprendi que precisava me importar mais com política.”
Mas o mundo que Charlie Kirk defendia parecia tão solitário. Não havia sinal de uma comunidade real, nenhum senso de apoio mútuo. Em vez disso, havia um medo alimentado por uma visão de uma realidade alternativa inexistente. As pessoas me diziam, repetidamente, que a culpa era das pessoas trans pelo fato de um homem cis ter atirado em Charlie. Diziam que Kirk fora morto por causa de sua fé. Que terroristas democratas o odiavam porque ele acreditava em Deus. Que ele era um mártir, a razão pela qual multidões estavam se voltando para Deus em todo o mundo. Minha cabeça girava sob o calor do meio-dia. O memorial não se parecia em nada com a vigília do dia anterior; era um comício de Trump, uma manifestação MAGA — não um funeral.
Tirei a mesma foto repetidas vezes. Eu a via em toda parte: uma mulher sozinha, com um bebê nos braços, olhando aterrorizada enquanto os homens ao redor gritavam sobre um mundo que havia perdido o rosto de Deus, um mundo em que os liberais querem matar seus filhos, um mundo em que nossas almas estão sendo corrompidas por pessoas cruzando fronteiras. Depois de um tempo, não consegui parar de ver aquelas mulheres — estavam em toda parte, à noite na vigília, sozinhas sob o sol escaldante de um estacionamento, cercadas por homens que as ignoravam, sem oferecer conforto ou apoio enquanto proclamavam a santidade que era Charlie Kirk.
Por trás de tudo, percebi uma solidão que dominava todo o fim de semana.
Fonte: High Country News.
Rafael Almeida é um buscador da espiritualidade e do autoconhecimento, dedicado há mais de uma década a estudar, praticar e viver experiências que promovem a expansão da consciência. Criador do blog Digital Pensar, compartilha reflexões, vivências e aprendizados que unem práticas ancestrais, desenvolvimento interior e a espiritualidade aplicada no dia a dia, sempre com o propósito de inspirar pessoas a se reconectarem com sua essência.

