A versão “woke” de Branca de Neve abandona as raízes cristãs do conto de fadas.
Crescendo em uma casa onde os jogos de tabuleiro eram disputados com intensidade quase absurda, não é de se estranhar que eu tenha me tornado uma nerd dos jogos, com um gosto adquirido por aqueles títulos europeus excessivamente complexos. Ainda assim, há um certo encanto nos jogos simples de antigamente — como Você Preferiria? — facilmente encontrados nas prateleiras das grandes lojas de varejo. Nesse jogo, o participante lê uma carta que apresenta duas opções terrivelmente nojentas, dolorosas ou assustadoras, e os outros jogadores tentam adivinhar qual delas o leitor escolheria.
Pensei nesse jogo recentemente quando me pediram para fazer uma crítica do novo filme Branca de Neve, e comecei a refletir sobre as coisas horríveis que eu preferiria fazer a ter que assistir a todas as uma hora e quarenta e nove minutos do mais novo fracasso em live-action da Disney. Como não possuo um espelho mágico brutalmente sincero, recorri à alternativa mais próxima que encontrei: minha esposa.
Minha querida, minha querida, de franqueza total,
O que seria mais agradável do que assistir Branca de Neve, do começo ao final?
A isso, ela respondeu:
Comer pizza coberta por cascas de cigarra.
Raspar o giz no quadro, do amanhecer ao anoitecer.
Andar na corda bamba entre dois arranha-céus.
Ficar presa no banheiro tendo apenas lixa como papel.
Por toda a terra, entre horrores e tormentos mil —
Ainda assim, meu amor, todos seriam bem mais gentis.
Fiquei satisfeito com essa resposta, pois sabia que minha amada dizia a verdade. Mas, assim como o caçador real, eu também precisava assumir esse sombrio dever. E, como ele, fui várias vezes tentado a abandonar o cinema e fingir que havia concluído minha tarefa analítica. No entanto, obriguei-me a completar a dolorosa vivissecção.
Antes, porém, de dissecar essa nova versão de Branca de Neve, vale relembrar as muitas maneiras pelas quais a história original — e, em certo sentido, o clássico animado de 1937 — era animada por profundos temas e imagens de inspiração bíblica e cristã.
A história chega até mesmo a evocar, de forma sutil, temas especificamente católicos.
Na história original dos Irmãos Grimm, uma rainha ora por um filho “branco como a neve, vermelho como o sangue e negro como o ébano”. Seu desejo é atendido, mas ela morre logo depois. O rei então se casa novamente com uma mulher belíssima que — em seu orgulho e arrogância — não suporta a ideia de ter uma rival em beleza e passa a buscar obsessivamente confirmação de sua superioridade. Essa nova rainha é descrita como “ímpia”: uma figura satânica que encarna uma forma distorcida de amor próprio. Ela não enxerga sua beleza física como um dom a ser usado para a glória de Deus e o bem dos outros, mas como uma posse pessoal pela qual exige a adoração alheia, como se fosse uma deusa. Essa vaidade mundana se reflete nas palavras de seu espelho mágico.
O conto de fadas mostra como os pecados capitais — ou mortais — se alimentam uns dos outros. Quando o espelho revela à rainha que Branca de Neve é mais bela do que ela, o orgulho e a inveja passam a crescer em seu coração “como uma erva daninha”. O orgulho da rainha, como se percebe, é uma forma de amor próprio exagerado, na qual ela se atribui uma excelência que ultrapassa sua condição — ou seja, que não está sujeita a Deus.
Branca de Neve pode, portanto, ser vista como uma figura semelhante a Eva — criada em inocência e beleza radiante — que supera aquela de natureza luciferiana que corrompeu a beleza que Deus lhe havia concedido. Assim, a criação de Branca de Neve desperta inveja no coração da rainha, um sentimento de tristeza diante do bem que Deus concedeu a outra pessoa. Essa inveja logo se transforma em ira: um desejo odioso de vingança contra a jovem e contra o próprio Deus, que concedeu a outra o dom de uma beleza superior. Em seguida, surge a gula, pois a rainha maligna acredita ter comido o fígado e os pulmões de Branca de Neve. Ao descobrir que fora enganada, ela tenta repetidas vezes invadir a casa dos anões para tentar e matar a garota — como um demônio que persegue a alma de um viajante. O caráter demoníaco da rainha é enfatizado por seu uso de feitiçaria para capturar Branca de Neve.
A história também evoca, de forma sutil, temas especificamente católicos. O número sete aparece repetidamente: Branca de Neve atinge o auge de sua beleza aos sete anos, sete anões vivem além das sete montanhas e a casa deles é preparada para sete. (E, notavelmente, ao contrário do filme animado, Branca de Neve encontra o lar dos anões organizado, “tão limpo e arrumado que ninguém poderia dizer o contrário.”) Esse motivo numérico sugere não apenas que a rainha representa os sete pecados capitais e Branca de Neve as sete virtudes cardeais, mas também faz alusão ao sacerdócio católico. O sacerdócio católico é o cumprimento do sacerdócio levítico, cuja consagração e cujos rituais estão repletos de referências ao número sete (por exemplo, Êxodo 29:35–37; Levítico 4:6; 8:33). O sacerdócio católico encarna os sete dons do Espírito Santo e guarda e administra os sete sacramentos, destinados a sustentar o peregrino em sua jornada espiritual.
Os sete anões — que, na história original, não recebem nomes ligados a estados emocionais — podem ser vistos como uma metáfora para o sacerdócio. Quando Branca de Neve chega aflita e exausta, ela come “um pouco de pão de cada pratinho e bebe uma gota de vinho de cada caneca”, depois do que “entregou-se a Deus” antes de adormecer. Os anões então retornam e encontram a jovem donzela. Assim como os sacerdotes católicos oferecem o alimento eucarístico ao cristão no refúgio da Igreja, os anões prometem o sustento contínuo de pão e vinho, bem como a proteção de sua cabana contra as ameaças do deserto. E, tal como um pastor que exerce seu ofício de ensinar para guiar a vida espiritual de seu rebanho, os anões-sacerdotes também aconselham Branca de Neve sobre como se proteger da “rainha ímpia” enquanto eles estiverem ausentes.
Assim como a tentação de Satanás sobre Eva, a rainha oferece a Branca de Neve uma maçã envenenada, e, apesar dos avisos dos anões, ela acaba cedendo. Mesmo o peregrino fortalecido pelos sacramentos — a alma tornada bela por Deus, branca como a neve — é frágil e pode ser enganado. Somente a vinda de um Homem — de um príncipe amoroso — pode, por fim, salvar todos aqueles que adormeceram sob a maldição. Os anões preparam e adornam a donzela adormecida com um rito fúnebre, à espera do Amado que pode ressuscitá-la.
Não surpreende que o novo filme de Branca de Neve abandone ou distorça a maior parte dos temas e imagens bíblicos e cristãos que tornaram a história original grandiosa. É evidente que a reação negativa aos vazamentos do set e às declarações “woke” da atriz que interpreta Branca de Neve (Rachel Zegler) levou a Disney a reescrever e reformular partes do filme. A refilmagem original aparentemente tinha um “tom moderno” mais forte: uma trama de empoderamento feminino, com uma jovem heroína que não sonha com o Príncipe Encantado, mas em liderar uma revolta política contra um tirano, à frente de seu grupo de “criaturas mágicas” diversas. A Disney acabou trazendo de volta os anões e os animais da floresta por meio de CGI — que agora parece significar Cringey Grotesque Images (“imagens grotescamente constrangedoras”). E forçou o retorno de um semi-romance à narrativa. O resultado é uma mistura confusa de política identitária voltada ao público contemporâneo, com alguns elementos quase tradicionais jogados aqui e ali. O efeito é semelhante ao de quando crianças pequenas amassam diferentes pedaços de massinha colorida, criando um caos disforme.
Em uma atuação surpreendentemente engessada, Gal Gadot interpreta a rainha má. Embora os vícios do orgulho e da inveja estejam presentes, eles parecem ceder lugar a vícios de natureza política — como a cobrança excessiva de impostos, o recrutamento forçado e a imposição de punições cruéis e incomuns. Já as virtudes de Branca de Neve — coragem, bravura e senso de justiça — são retratadas sob uma ótica política. A atuação de Rachel Zegler é aceitável — ela demonstra talento como cantora —, mas há limites para o que uma atriz pode fazer com um roteiro tão mal escrito.
Branca de Neve desafia a rainha ao libertar o charmoso e audacioso bandido Jonathan — que afirma lutar pelo misteriosamente desaparecido rei, pai de Branca de Neve — de uma punição cruel. É esse ato que faz o espelho mágico mudar de opinião e declarar que Branca de Neve é a mais bela de todas. Como assim? Se o espelho — que diz estar vinculado apenas ao que é “verdadeiro” — é o juiz da “beleza” no sentido de caráter moral, por que o serviço silencioso e humilde de Branca de Neve como criada injustamente escravizada não chamou sua atenção antes? Como pode a ajuda dela à resistência ser um ato de virtude política suficiente para torná-la a mais bela, enquanto a tirania da rainha não foi considerada moralmente feia aos olhos do espelho? Esse é apenas um exemplo das incoerências que surgem quando as virtudes de Branca de Neve são transformadas em qualidades de uma revolucionária política.
A aparência de “justiça”, que na verdade parece ser uma forma de sentimentalismo, apenas oculta o próprio amor-próprio desordenado da Branca de Neve “woke”.
Se a história original é ao menos em parte uma metáfora para o dramático conflito entre o Amado divino e o inimigo demoníaco da alma, o filme animado encobre essa metáfora sob o véu do amor romântico, especialmente nas canções “I’m Wishing”, “One Song” e “Someday My Prince Will Come”. No nível do amor romântico, a Branca de Neve tradicional se vê radicalmente incompleta sem um marido — e, quando lida à luz da economia espiritual e do plano do amor divino, sua alma anseia por Deus. Esse reconhecimento da necessidade de amizade conjugal e divina é característica da humildade da Branca de Neve clássica.
A Branca de Neve da modernidade tardia elimina tudo isso. A canção principal do filme é “Waiting on a Wish”. Já não é a amada que espera pelo seu Amado; Branca de Neve agora espera até ter força suficiente para realizar seus próprios desejos de girlboss.
Ela liderará ou apenas será liderada? . . .
Alguém que finalmente poderia começar
A falar com um coração destemido
Alguém que talvez seja corajosa
Alguém que ninguém precisa salvar
A implicação é que um tipo diferente de orgulho é valorizado — um orgulho político autossuficiente, no qual a criada oprimida se levanta contra o tirano e toma o trono. De fato, Branca de Neve promete desfazer as políticas tirânicas da rainha, e a “justiça” não é meramente o ditado da rainha. Mas a aparência de “justiça”, que na realidade parece ser uma forma de sentimentalismo, apenas oculta o amor-próprio desordenado da Branca de Neve “woke”.
Assim, Branca de Neve praticamente precisa ser forçada a permanecer com os anões, que são em grande parte relegados a apêndices sem charme e sem relevância no caminho dela para o autoempoderamento. Ela deixa a cabana dos anões após apenas um dia para buscar os combatentes da resistência, cujas histórias não conhecemos nem nos importamos, sendo em grande parte personagens de fundo para Jonathan.
Embora ele também seja, em grande parte, irrelevante para o arco de Branca de Neve, o roteirista se deu ao trabalho de atribuir a Jonathan a função de acordá-la do veneno da maçã com um beijo desajeitado, aplicado parcialmente na bochecha e parcialmente no canto dos lábios. Sem dúvida, a Branca de Neve “woke” deve ter tido sentimentos conflitantes sobre ser beijada sem seu consentimento assinado e registrado em cartório. Nenhuma declaração de amor é feita — nenhum desejo ou plano de casamento é expresso. Em vez disso, o não-príncipe desaparece rapidamente da tela, para que a confrontação final possa ocorrer, na qual a Branca de Neve empoderada derrota a rainha má e assume o trono.
Felizmente, a Disney não vai tão longe a ponto de transformar a Princesa Branca de Neve em Mulan, uma assassina guerreira. Então, como ela realiza a revolução? Com uma marcha deus ex machina até o palácio, discurso de protesto e um golpe de estado sem derramamento de sangue tão implausível que faria até os roteiristas de Superman: The Moviecorarem. (Aquele em que Superman voava em torno da Terra rapidamente para reverter o tempo.) A cena final — uma coreografia de massa totalmente constrangedora, na qual todos estão vestidos de branco sem razão aparente — não celebra um casamento, mas a girlboss que se afirmou, realizou seus próprios desejos e não precisou ser salva (exceto, é claro, por aquele beijo não consensual).
Com uma narrativa tão insípida e incoerente, será que é surpresa que Branca de Neve tenha sido um desastre de bilheteria?
Para ser honesto, eu não fui tão corajoso quanto sugeri antes. Levei algumas das minhas filhas comigo para não ter que sofrer com o filme completamente sozinho. Depois, perguntei a elas:
Minhas queridas, minhas queridas, ouçam meu chamado,
Vocês diriam que este filme foi justo ou não?
Elas responderam:
O próprio filme, certamente, não foi,
Mas foi justo ter um encontro com nosso pai.
Fiquei satisfeito com essa resposta — em qualquer “ou/ou” que envolva um encontro com minhas filhas, uma escolha é sempre mil vezes mais justa.
Fonte: World on Fire.
Rafael Almeida é um buscador da espiritualidade e do autoconhecimento, dedicado há mais de uma década a estudar, praticar e viver experiências que promovem a expansão da consciência. Criador do blog Digital Pensar, compartilha reflexões, vivências e aprendizados que unem práticas ancestrais, desenvolvimento interior e a espiritualidade aplicada no dia a dia, sempre com o propósito de inspirar pessoas a se reconectarem com sua essência.

