Como a religião tem diminuído ao redor do mundo

Como a religião tem diminuído ao redor do mundo

A identidade religiosa vem diminuindo em muitos países. Entre 2010 e 2020, a parcela da população que se declarava ligada a alguma religião caiu pelo menos 5 pontos percentuais em 35 nações, de acordo com um estudo recente do Pew Research Center. Em alguns lugares a queda foi ainda mais acentuada, como na Austrália (17 pontos), Chile (17), Uruguai (16) e Estados Unidos (13).

Um novo artigo acadêmico, elaborado por um grupo de estudiosos internacionais, propõe que a queda na afiliação religiosa ocorre nas fases intermediárias e finais de um processo chamado “transição secular”. Essa mudança acontece de forma lenta, à medida que as gerações mais religiosas são substituídas por outras menos ligadas à fé.

Com base em dados de pesquisas do Pew Research Center em 111 países e territórios, o estudo aponta que esse processo está presente em todas as regiões habitadas do planeta, inclusive em nações onde o cristianismo, o islamismo, o budismo ou o hinduísmo são as religiões predominantes.

O trabalho foi publicado na revista científica Nature Communications e assinado por Jörg Stolz e Jean-Philippe Antonietti, da Universidade de Lausanne, Nan Dirk de Graaf, da Universidade de Oxford, e Conrad Hackett, do Pew Research Center.

Segundo os autores, o declínio religioso entre gerações costuma seguir três etapas:

  1. As pessoas passam a frequentar menos os cultos e cerimônias religiosas.
  2. A religião perde importância na vida pessoal.
  3. A identidade religiosa se torna cada vez menos comum.

Eles chamam esse processo de sequência de Participação-Importância-Pertencimento (P-I-B). Nela, as gerações tendem primeiro a abandonar os aspectos da religião que exigem mais tempo e recursos. Já a identidade religiosa costuma ser deixada de lado mais lentamente, por não representar necessariamente um peso tão grande.

No estágio inicial da transição secular, a principal diferença entre as gerações está na participação religiosa. Em alguns países que ainda permanecem fortemente religiosos, pesquisas recentes mostram que a proporção de adultos com menos de 40 anos que frequentam cultos regularmente já é menor do que a dos adultos mais velhos que fazem o mesmo.

Como a religião tem diminuído ao redor do mundo

Muitos países africanos encontram-se atualmente nesse estágio inicial. No Senegal, por exemplo, 78% dos adultos mais velhos participam semanalmente de cultos, enquanto entre os mais jovens essa taxa é 14 pontos percentuais menor. Ainda assim, quase todos os adultos no país – tanto jovens quanto idosos – continuam se identificando como muçulmanos e consideram a religião muito importante em suas vidas.

No estágio intermediário da transição secular, as gerações passam a diferir não apenas na participação, mas também na importância atribuída à religião e no pertencimento religioso. Em países moderadamente religiosos, as três etapas da sequência P-I-B já podem ser observadas em pesquisas recentes. Adultos com menos de 40 anos frequentam menos os cultos, atribuem menor relevância à fé em suas vidas e se identificam menos com alguma religião. É o que ocorre atualmente nos Estados Unidos e em diversos outros países das Américas e da Ásia.

No estágio avançado da transição secular, a principal diferença entre as gerações está no pertencimento religioso. Isso acontece porque as duas primeiras etapas já foram completadas: tanto jovens quanto idosos apresentam níveis baixos de participação em cultos e de importância atribuída à religião. Assim, a diferença marcante é que os mais jovens têm menos probabilidade de se declarar pertencentes a uma religião.

Muitos países da Europa já chegaram a essa fase. Na Dinamarca, por exemplo, 79% dos adultos mais velhos ainda mantêm alguma afiliação religiosa, mas entre os menores de 40 anos essa proporção cai 26 pontos percentuais. A frequência a cultos e a percepção da importância da religião são baixas em todas as faixas etárias.

Países com diferentes tradições religiosas tendem a estar em estágios distintos da transição secular. Entre aqueles que já se encontram na fase intermediária ou avançada, a religião predominante costuma ser o cristianismo ou o budismo. Já os países de maioria muçulmana e a Índia, de maioria hindu, estão no estágio inicial, e ainda não está claro se seguirão adiante nesse processo ou se permanecerão como estão por um longo período.

Essa transição secular não ocorre de forma totalmente uniforme, nem é necessariamente inevitável em todos os lugares. Embora os pesquisadores defendam que a religião tende a enfraquecer segundo esse padrão em muitos contextos, o ponto central de diferença entre os países é o momento em que eles iniciam essa mudança.

Existem também exceções ao modelo. Países do Leste Europeu pós-comunistas, de maioria ortodoxa ou muçulmana – como Rússia, Azerbaijão, Moldávia e Geórgia – não parecem seguir atualmente a sequência P-I-B. Isso se deve ao fato de que seus regimes comunistas reprimiram a religião, e, após o colapso da União Soviética, essas nações vivenciaram renascimentos religiosos ligados ao nacionalismo.

Outra exceção é Israel, o único país do mundo com maioria judaica. A nação possui uma grande população de judeus seculares, incluindo muitos idosos que migraram da antiga União Soviética. No entanto, uma parcela significativa dos jovens israelenses nasceu em famílias ortodoxas e ultraortodoxas. No conjunto, os jovens apresentam níveis de religiosidade semelhantes aos de seus pais e avós.

O gráfico abaixo foi adaptado da Figura 1 do artigo “Three stages of religious decline around the world”, publicado na Nature Communications. Ele ilustra a sequência de Participação-Importância-Pertencimento, destacando as diferenças na religiosidade entre jovens e idosos em pesquisas do Pew Research Center realizadas em 94 países e territórios. Foram omitidos os dados de Israel e de 16 países pós-comunistas do Leste Europeu.

Como a religião tem diminuído ao redor do mundo

Fonte: Pew Research.