Como se tornar a mãe de Jesus
Maria como mediadora?
O Papa João Paulo II, que faleceu em 2005, escreveu uma carta para apresentar a segunda edição do Catecismo oficial da Igreja Católica Romana. E, ao final da carta, ele se despediu da seguinte forma: “A Maria, Mãe de Cristo, cuja Assunção em corpo e alma ao céu celebramos hoje, confio estes votos para que se cumpram para o bem espiritual de toda a humanidade” (xvi).
Para mim, essa dedicação é um exemplo clássico da diminuição, na prática, da glória de Jesus Cristo pela inserção de Maria como aquela a quem confiamos nossas orações e de quem esperamos que elas sejam realizadas. E essa visão de Maria está em conformidade com o catecismo oficial da igreja romana. Por mais que a igreja católica diga, repetidamente, que essa devoção a Maria “é essencialmente diferente da adoração prestada ao Verbo encarnado” (seção 971), o que realmente prevalece no ensinamento — e causa a quase global diminuição de Cristo entre milhões de católicos comuns — é o seguinte:
De forma santa e única, ela cooperou com obediência, fé, esperança e ardente caridade na obra do Salvador de restaurar a vida sobrenatural às almas… Elevada ao céu, ela não abandonou essa missão salvadora, mas, por sua múltipla intercessão, continua a nos trazer os dons da salvação eterna… Por isso, a Bem-Aventurada Virgem é invocada na Igreja com os títulos de Advogada, Auxiliadora, Protetora e Medianeira. (seções 968–969)
Mais adiante, o texto afirma que ela é aquela “à cuja proteção os fiéis recorrem em todos os perigos e necessidades” (seção 971). E, para sustentar essa ênfase impressionante em Maria como nossa auxiliadora e mediadora da salvação, a Igreja Romana formula a doutrina da impecabilidade de Maria. O catecismo declara: “A Virgem Imaculada, preservada imune de toda mancha do pecado original, ao término de sua vida terrena, foi elevada em corpo e alma à glória celeste e exaltada pelo Senhor como Rainha sobre todas as coisas” (seção 966).
O que precisamos entender aqui é que existe uma diferença enorme e fundamental entre a Igreja Católica Romana e o protestantismo no que diz respeito à base de autoridade para a doutrina da igreja. Para os protestantes, essa base é a Bíblia — somente a Bíblia — como única autoridade final para determinar o que deve ser ensinado como verdade. Já para a Igreja Romana, a autoridade está na Bíblia mais o magistério católico, que tem igual peso — ou seja, o papa e os bispos em comunhão com ele. E eles não apenas interpretam a Bíblia; eles acrescentam a ela. Essa diferença é a razão pela qual, ao longo dos séculos, a Igreja Católica Romana pôde incluir cada vez mais ensinamentos sobre Maria que não estão nas Escrituras e que, na minha visão, distorcem o entendimento do que a Bíblia realmente diz — especialmente quanto à glória única de Jesus Cristo.
Maria segundo Jesus
Sem dúvida, devemos chamar Maria de bem-aventurada. Apenas uma mulher deu à luz sendo virgem e carregou no ventre o Salvador do mundo. Isso foi um privilégio glorioso e doloroso. Por isso, nos unimos a Isabel ao dizer, em Lucas 1:42: “Bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre!”
Mas Jesus, nos Evangelhos, e o Espírito Santo, cuja missão é glorificar Jesus e inspirar os escritos do Novo Testamento, nos contêm. Jesus e o Espírito nos impedem de seguir o tipo de exaltação a Maria que vemos na Igreja Católica Romana. Na verdade, sobre o tema de chamar Maria de bendita, Jesus nos direciona de forma bem diferente da igreja romana. Veja o que diz Lucas 11:27–28: “Uma mulher que estava entre a multidão disse a Jesus: ‘Bem-aventurado o ventre que te trouxe e os seios que te amamentaram!’ Mas ele respondeu: ‘Antes, bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus e a guardam!’” Em outras palavras, há uma bem-aventurança maior em carregar a palavra de Deus num coração obediente do que em carregar o Filho de Deus no ventre físico. Isso é marcante. E é verdadeiro.
Jesus também fez esse mesmo redirecionamento da nossa maneira de pensar sobre Maria em Marcos 3:32–35:
“Uma multidão estava sentada ao seu redor, e disseram-lhe: ‘Tua mãe e teus irmãos estão lá fora e te procuram.’ Ele respondeu: ‘Quem é minha mãe e quem são meus irmãos?’ E, olhando para os que estavam sentados ao seu redor, disse: ‘Aqui estão minha mãe e meus irmãos! Pois qualquer que fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe.’”
Isso deve soar absolutamente espantoso, até mesmo herético, para um católico romano que exalta Maria da forma como a Igreja Romana faz. Jesus está dizendo: “Ninguém tem qualquer relação salvadora comigo por meio de laços familiares naturais — nem minha mãe, nem meus irmãos. A única maneira de alguém demonstrar que tem uma relação salvadora comigo é fazendo a vontade de Deus.”
O legado limitado de Maria
Agora, vamos considerar algumas outras realidades do Novo Testamento para nos orientar em relação a Maria.
Após a menção de Maria no cenáculo, como uma das 120 pessoas que oravam em Atos 1:14, Maria nunca mais é citada no Novo Testamento. Nenhuma das cartas de Paulo, Pedro, João, Tiago, Judas ou Hebreus menciona Maria, o que é muito estranho se ela fosse realmente uma parte significativa da vida cristã e da devoção — surpreendente, caso a Igreja Romana esteja certa.
Além disso, no único trecho em que Paulo chega perto de mencionar Maria, ele escolhe não fazê-lo diretamente e fala apenas de uma mulher genérica. Em Gálatas 4:4, ele diz: “Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher.”
Terceiro, o nascimento virginal é verdadeiro e importante. Mas, após o relato do nascimento em Lucas, ele nunca mais é mencionado no Novo Testamento.
Quarto, Maria foi uma pessoa magnífica, um grande exemplo de fé para mulheres e homens. Sua humildade brilha em Lucas 1:48: “Pois olhou para a humildade de sua serva.” Sua fé era profunda: “Bem-aventurada aquela que acreditou que se cumpriria o que lhe fora dito da parte do Senhor” (Lucas 1:45). Seu sofrimento foi intenso: “Uma espada traspassará tua própria alma também” (Lucas 2:35). Seu Deus era soberano: “Mostrou força com seu braço… derrubou dos tronos os poderosos,” disse Maria (Lucas 1:51–52). E suas reflexões estavam cheias de verdade: “Maria guardava todas essas coisas, meditando-as em seu coração” (Lucas 2:19).
Portanto, de modo algum, lembre-se de Maria, admire Maria, agradeça a Deus por Maria, inspire-se em Maria — mas não ultrapasse o que o Novo Testamento apresenta. Nosso chamado é ser mãe de Jesus mais do que venerá-la. Como Jesus disse, em Lucas 8:21, “Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática.”
Fonte: Desiring God.
Rafael Almeida é um buscador da espiritualidade e do autoconhecimento, dedicado há mais de uma década a estudar, praticar e viver experiências que promovem a expansão da consciência. Criador do blog Digital Pensar, compartilha reflexões, vivências e aprendizados que unem práticas ancestrais, desenvolvimento interior e a espiritualidade aplicada no dia a dia, sempre com o propósito de inspirar pessoas a se reconectarem com sua essência.

