E se Jesus fosse um vlogger?

E se Jesus fosse um vlogger? As histórias bíblicas geradas por IA que estão dominando as redes sociais.

Esses vídeos são um sinal dos tempos? Estão me doutrinando para o cristianismo? Será que rolar a tela pode me trazer salvação? Por que não consigo parar de assistir?

Jesus caminha por um campo esmeralda segurando um bastão de selfie. Os primeiros acordes de Birds of a Feather, de Billie Eilish, sobem como uma oração. “OK besties, aparentemente eu sou o escolhido, tipo arco completo de salvar a humanidade,” ele brinca. “Amei isso pra mim.” Jesus joga para trás as madeixas à la Jonathan Van Ness.

A cena muda. Ele ainda segura o bastão de selfie, mas agora anda por uma cidade empoeirada. “Acabei de contar pra galera que preciso morrer e o Pedro literalmente tentou me gaslightar. Tipo, amor, não seja dramático. Isso é a profecia.”

Mais um corte. Jesus em um banquete à luz de velas. “E aí, chat, estamos na metade do jantar. O Judas nem conseguiu olhar nos meus olhos.” Ele balança a cabeça e encara a câmera com um sorriso sarcástico. “Muito falso!”

À primeira vista, esse tipo de vídeo — a releitura das histórias bíblicas pelo olhar americanizado da cultura vlogger estilo fuckboy — parece um amontoado bizarro e quase blasfemo de bobagens. A não ser que você prefira intelectualizar tudo isso como a congregação da santíssima trindade de 2025: inteligência artificial, cultura de influenciadores e o conservadorismo em ascensão. Fica a seu critério. Esses vídeos são um sinal dos tempos? Um sintoma da direita americana? Estão me doutrinando para o cristianismo? Por que esse estilo bíblico é meio sensual? Por que não consigo parar de assistir? Por que sinto que meu cérebro está derretendo e escorrendo pelo ouvido?

Minha primeira “conversão” aos vlogs bíblicos aconteceu deitado na cama. Eu estava de boca aberta, em meio a uma sessão de rolagem de proporções bíblicas, quando o algoritmo se abriu como o mar e apareceu José de Nazaré na tela. “Olha o look! Drip antigo no grau, família. Feira do dia tá rendendo. Figos no ponto, sem meme.” Me ajeitei um pouco, limpando a baba no canto da boca. Normalmente, mais baboseira não cura a mente entorpecida — e, mesmo assim… eu era Daniel na cova dos leões. Eu era Jonas no ventre da baleia. Eu estava misturando metáforas. Meu compromisso com o scroll me levou à salvação.

Minhas opiniões sobre religião e sobre pegação já mudaram. Hoje, minha prática espiritual se resume a dizer coisas como “Jesus, assume o volante!” ou “Meu Deus!”, e a tirar fotos de ícones religiosos enquanto viajo por países católicos — pra depois postar no Instagram.

E, mesmo assim, todas as noites da semana, me pego ignorando dicas de looks e sugestões de restaurantes só pra mergulhar num vibe check gerado por IA da Última Ceia. Ou pra assistir a um vlog estilo unboxing do Cavalo de Troia. Talvez até um vox pop de Segunda-feira de Páscoa. E em seguida, uma sequência de reações de rua ao Davi matando Golias. Coisas realmente incríveis.

Recentemente fui à confissão com uma amiga e admiti meu fanatismo. Preguei para convertidos — ela também tinha mordido a maçã das histórias bíblicas feitas por IA. Jesus, ela disse, foi meio que o primeiro influenciador. Maria e José pareciam aqueles pais tóxicos de vlog. E se Judas estivesse vivo hoje, com certeza postaria vídeos no YouTube de 40 minutos sem edição e sem maquiagem — ou, no mínimo, uma nota de desculpas bem escrita no aplicativo de notas.

Por um instante, penso no custo ambiental. Quantos litros de água foram gastos para que eu visse Maria fazendo um dab? Quantos recursos finitos queimamos para que um Jesus de IA fizesse uma piada sobre o tutorial de transformar água em vinho? Quantos anos tiramos do planeta só para que — espera! Psiu. O próximo vídeo vai começar.

Adão está em um estúdio de podcast, com fones de ouvido com cancelamento de ruído, um microfone à frente, vestindo uma camisa feita de uma frágil corrente de folhas. “Então Deus me cria. Certo? Boom. Primeiro homem, sem pais, sem nada. E eu fico tipo… ‘Ooh… literalmente vou ser o pai de todo mundo!’” Meus olhos vidram, a boca se abre, junto as mãos em oração. Elas se separam e bato uma na outra, de novo e de novo, quase possuído. Outro! Mais um! Mais um!

Fonte: The Guardian.