Em qual dia Jesus ressuscitou?
Em que dia Jesus ressuscitou? Depois de três dias ou no terceiro dia? Em sua coluna Biblical Views, intitulada “É uma questão de tempo — Tempo da Páscoa”, publicada na edição de maio/junho de 2016 da Biblical Archaeology Review, Ben Witherington III analisa essa questão. Leia abaixo a coluna completa de Biblical Views.
“É uma questão de tempo — Tempo da Páscoa”
por Ben Witherington III
Um dos desafios ao ler textos antigos como a Bíblia no século XXI é o risco do anacronismo — isto é, introduzir ideias e expectativas modernas que não ajudam na interpretação. Esse problema se torna ainda mais sério quando lidamos com escritos antigos dos quais dependem questões históricas importantes.
Por exemplo, somos um povo obcecado pelo tempo — e pela precisão absoluta desse tempo — até o nível dos nanossegundos. Nesse aspecto, somos muito diferentes dos antigos, que não andavam por aí com pequenos relógios de sol no pulso nem falavam em segundos e minutos. Eles não tinham essa preocupação com exatidão quando se tratava de medir o tempo.
Vejamos alguns exemplos nos Evangelhos que podem nos ajudar a ler com mais clareza as narrativas sobre a última semana da vida de Jesus.
Alguns textos afirmam que Jesus previu que ressuscitaria “depois de três dias”. Outros dizem que ele voltaria à vida “no terceiro dia”. Em Mateus 12:40, Jesus fala em “três dias e três noites”, mas isso faz parte de uma analogia geral com a história de Jonas e o peixe; por isso, essa referência temporal não deve ser tomada ao pé da letra. Jesus está apenas dizendo: “Será semelhante ao que Jonas viveu.”
Por outro lado, em Marcos 8:31 Jesus afirma: “O Filho do Homem ressuscitará depois de três dias.” Em João 2:19, ele fala do mesmo acontecimento dizendo “em três dias”, e em várias passagens os evangelistas relatam que Jesus usou a expressão “no terceiro dia” (por exemplo, Mateus 16:21; 17:23; 20:19; Lucas 24:46). À primeira vista, isso pode parecer uma contradição direta. Embora ambas as previsões pudessem estar erradas, seria realmente possível que as duas estivessem corretas ao mesmo tempo?
O problema com esse tipo de raciocínio moderno é supor que os autores dos Evangelhos pretendiam sempre escrever com exatidão sobre esse assunto. Na verdade, a expressão “depois de três dias” no Novo Testamento pode simplesmente significar “depois de algum tempo” ou “depois de uns dias”, sem uma especificidade rígida, apenas indicando que se tratava de vários dias — no caso, partes de três dias.
De fato, a Bíblia Hebraica nos oferece algumas pistas sobre essas variações. Em 2 Crônicas 10:5, 12 está claramente escrito: “Voltem a mim depois de três dias… Então… todo o povo voltou a Roboão no terceiro dia, porque o rei havia dito: ‘Voltem a mim no terceiro dia.’” Aparentemente, “depois de três dias” significa exatamente o mesmo que “no terceiro dia” nesse texto.
Isso seria apenas descuido, ou um exemplo de imprecisão típica na forma antiga de falar sobre o tempo? Eu sugeriria que “depois de três dias” é uma maneira mais geral ou menos precisa de se expressar, enquanto “no terceiro dia” é um pouco mais específica (embora ainda não indique em que momento do terceiro dia). Esses textos não foram escritos para atender aos nossos padrões modernos de rigor temporal.
Uma das chaves para interpretar as referências temporais no Novo Testamento é perceber que, na maioria das vezes, essas menções não são precisas; devemos permitir que o autor antigo seja genérico quando deseja ser genérico e mais detalhado quando prefere ser específico. Especialmente quando encontramos ambos os tipos de expressões sobre o intervalo entre a morte e a ressurreição de Jesus dentro do mesmo livro, escritos pelo mesmo autor — às vezes até muito próximos entre si — devemos entender que esses textos não foram compostos segundo nossos padrões modernos de exatidão quanto ao tempo.
Não está na hora de permitirmos que esses autores utilizem a linguagem, inclusive a linguagem temporal, do modo que era habitual em sua própria época? Eu diria que já passa da hora de darmos a esses escritores antigos o respeito que merecem, lendo-os com consciência das convenções que seguiam ao produzir história ou biografia antigas, sem impor a eles os modelos literários desenvolvidos muito depois.
Fonte: Biblical archaeology.
Rafael Almeida é um buscador da espiritualidade e do autoconhecimento, dedicado há mais de uma década a estudar, praticar e viver experiências que promovem a expansão da consciência. Criador do blog Digital Pensar, compartilha reflexões, vivências e aprendizados que unem práticas ancestrais, desenvolvimento interior e a espiritualidade aplicada no dia a dia, sempre com o propósito de inspirar pessoas a se reconectarem com sua essência.

