Greg Sheridan acredita que os primeiros cristãos têm lições para os fiéis de hoje – será que ele está certo?
O novo livro de Greg Sheridan sobre o cristianismo é ao mesmo tempo uma lição de história, uma análise cultural e um testemunho de fé. Ele defende que os cristãos do Ocidente podem aprender muito com o cristianismo primitivo sobre como “prosperar” em um mundo não cristão.
O livro traz muito conteúdo relevante, estruturado por capítulos de abertura e encerramento que apresentam o cristianismo como uma fé ameaçada por um mundo que, nas palavras de Sheridan, é “profundamente hostil ao cristianismo”. A queda na frequência às igrejas e no número dos que se identificam como cristãos é apresentada como prova de que estamos “abandonando a Deus” e nos tornando, culturalmente, uma sociedade neopagã ou pós-cristã.
A Roma “pagã” é descrita de forma direta e serve como um espantalho, em contraste com o qual Sheridan coloca o cristianismo primitivo como o herói corajoso e amoroso.
Primeiros cristãos
Sheridan sugere que a Roma antiga era “mais parecida com o mundo de hoje do que se imagina”. No entanto, ao estabelecer paralelos entre os dois contextos, ele acaba minimizando erroneamente o quão profundamente religiosa era a sociedade romana, assim como a relevância da ética e das virtudes em suas tradições filosóficas.

No Império Romano do primeiro século, a religião permeava todos os aspectos da vida. As pessoas comuns estavam em constante contato com ícones religiosos, templos, sacrifícios, rituais, práticas de adivinhação, curas, cânticos, profecias e sacerdotes no cotidiano. O politeísmo do mundo mediterrâneo era complexo e muito diferente do monoteísmo judaico e cristão, mas ser não religioso simplesmente não era uma opção.
Nesse sentido, a sociedade romana se diferenciava de maneira clara da cultura ocidental moderna, que Sheridan chama de “neopagã”.
A primeira parte do livro narra a história do cristianismo primitivo. Nela, Sheridan destaca algumas características que distinguiam os cristãos do restante da cultura: a coragem diante da morte, a crença na dignidade intrínseca de mulheres, crianças e escravizados, sua ética e amor pelos marginalizados, além da paixão por uma vida de fé distinta.
Sheridan destaca pontos que os cristãos de hoje poderiam aprender com os primeiros seguidores de Cristo. Para leitores pouco familiarizados com os primeiros séculos do cristianismo, esses capítulos oferecem reflexões úteis e ricas. E eu concordo com a essência da narrativa de Sheridan. No entanto, como historiador do cristianismo primitivo, percebi falhas em certas interpretações ou omissões.
Por exemplo, ao enfatizar a valorização da vida de mulheres e meninas pelos primeiros cristãos — já que também refletiam a imagem de Deus —, Sheridan ressalta dois aspectos. O primeiro é o ensinamento do Novo Testamento de que os maridos deveriam amar suas esposas (e não apenas dominá-las). O segundo é que os cristãos tinham menor propensão a praticar o infanticídio de bebês do sexo feminino.
Ambos os pontos são verdadeiros. No entanto, a ênfase em casamentos monogâmicos e famílias numerosas como o centro do cristianismo primitivo se alinha mais à valorização moderna da família nuclear do que à realidade completa da igreja das origens. Fica ausente da narrativa a adoção radicalmente contracultural do celibato — algo defendido por Paulo, vivido por Jesus e abraçado por muitos cristãos.
Para as mulheres da Antiguidade, cujas vidas eram controladas por seus pais ou maridos, o celibato oferecia uma forma atraente de escapar da domesticidade e dos grandes riscos associados ao parto.
Perseguição e martírio
Também chama atenção a forma como Sheridan aborda a narrativa do martírio e da coragem cristã diante da morte.

Ele afirma que “na maior parte do tempo, os cristãos não eram ativamente perseguidos”. Essa síntese é correta, mas acaba sendo comprometida pelo grande número de páginas dedicadas a recontar histórias de mártires heroicos e a repetir expressões como “onda de perseguição”. O leitor pode facilmente ficar com a impressão de que o martírio era uma ameaça constante para a maioria dos cristãos, em vez de algo ocasional (o que, claro, já era assustador justamente por sua imprevisibilidade).
Perguntei-me como Sheridan avaliaria o livro premiado da historiadora Candida Moss, The Myth of Persecution (2013), que defende a ideia de que os primeiros cristãos exageraram os relatos de perseguição e martírio como parte da construção de sua identidade. Moss argumenta — e eu concordo — que a amplificação da perseguição antiga favorece a narrativa contemporânea de hostilidade contra os cristãos no Ocidente. O nome de Moss, no entanto, não aparece na bibliografia, embora esteja citado em outros livros mencionados por Sheridan.
Apesar dessas divergências, concordo plenamente com a conclusão de Sheridan na primeira parte do livro: “Não devemos deixar nossas mentes tão estreitas a ponto de não aprendermos com os primeiros cristãos, que nossa cultura quase que totalmente esqueceu.”
Como cristã, assim como Sheridan, acredito que há muito a aprender com a igreja primitiva. Podemos aprender com a forma como seus seguidores interagiam com a cultura ao redor, lidavam com as diferenças, comunicavam-se através de barreiras culturais e equilibravam comportamento e crença como expressões igualmente importantes da fé.
Cristãos contemporâneos
A segunda parte do livro volta-se para os cristãos contemporâneos. Ao longo de sete capítulos, Sheridan narra histórias de pessoas que vivem sua fé. Figuras conhecidas, como a romancista Marilynne Robinson e o ex-vice-presidente dos EUA, Mike Pence, são entrevistadas ao lado de pessoas menos famosas, mas igualmente fascinantes.
A história de Danny e Leila Abdullah e a trágica morte de três de seus filhos, vítimas de um motorista alcoolizado em Sydney, é profundamente comovente. O perdão deles ao motorista é apresentado como a vivência dos valores bíblicos no mundo atual, um ato de graça profunda e um caminho de cura para si mesmos.

Em alguns momentos, Sheridan assume uma postura de narrador pouco crítico em relação a alguns desses exemplos de um cristianismo “bem-sucedido”. Quando uma pessoa ou movimento apresenta aspectos positivos, quaisquer aspectos negativos podem ser mais ou menos ignorados.
Por exemplo, Sheridan traça um retrato elogioso de Pence. Ele merece respeito como um cristão sincero, mas Sheridan não questiona nem analisa como Pence passou a apoiar Donald Trump, sabendo o que se sabia sobre ele na época, até aquele fatídico dia de janeiro de 2020, quando uma multidão violenta invadiu o Capitólio ameaçando a vida de Pence.
De maneira semelhante, Sheridan parece impressionado com o psicólogo Jordan Peterson. Ele se esforça para apresentá-lo como cristão, mesmo reconhecendo que Peterson nunca afirmou publicamente ser um.
Peterson já escreveu sobre a Bíblia e utiliza partes da tradição cristã em seu trabalho, o que leva Sheridan a tratá-lo como uma espécie de autoridade teológica. Ele não é. Na verdade, Peterson erra em conceitos fundamentais sobre o cristianismo (mas isso é tema para outro ensaio).
Sucesso em uma “era apostólica”
Por fim, sobre o sucesso. Sheridan define sucesso predominantemente em termos de crescimento, admirando os primeiros cristãos pela “expansão de seu movimento”.
Essa é uma perspectiva familiar para nós, no Ocidente, moldados por mentalidades capitalistas e imperiais em que crescimento é sempre positivo. Mas se sucesso é expansão, fica pouco claro com que objetivo: poder político? Influência social? Uma igreja cheia?
Sucesso não é uma categoria cristã ou teológica. Se a missão da igreja é amar o mundo como Deus ama e ajudar as pessoas a seguir Cristo, pode haver momentos que, pelos padrões modernos que valorizam poder e riqueza, pareçam fracasso.
Além disso, a história do cristianismo após a conversão do imperador Constantino em 312 d.C. nos lembra que um império “cristão” pode se assemelhar muito a um império romano pagão. Quando os cristãos detêm poder, podem tornar-se tão opressivos e corruptos quanto qualquer outro.
No cenário global atual, existem inúmeros exemplos de cristianismo sendo apropriado para fins autoritários. Sheridan certamente não defende isso, mas também não antecipa que o autoritarismo teocrático ou o neo-imperialismo possam surgir como interpretações de “sucesso” cristão.
De forma positiva, os exemplos de fé que Sheridan apresenta incluem Madre Teresa e outras figuras cujo compromisso com a pobreza e o serviço não necessariamente resulta em crescimento numérico ou poder político. Isso sugere que há um sentido mais sutil e nuançado de sucesso sendo invocado, ainda que de forma implícita.
Para os cristãos que lamentam o fim da Cristandade, este livro será impactante. Em última análise, discordo de Sheridan quanto à medida em que nossa sociedade é hostil aos cristãos e do quanto se assemelha à Roma antiga, mas concordo que não podemos voltar à Cristandade. Tampouco os cristãos contemporâneos devem se contentar com moralismo sem Deus, conformismo cultural e a privatização da fé.
No final, Sheridan recorre à linguagem da “era apostólica” do primeiro século. Ele oferece uma forma reflexiva de reconhecer o melhor da igreja primitiva, mesmo que nosso mundo seja fundamentalmente diferente do deles.
Na era apostólica, os cristãos precisavam defender suas ideias na praça pública, em vez de falar a partir de um lugar de privilégio. O declínio do domínio cristão institucional e cultural nos coloca de volta nesse espaço, o que, na verdade, pode ser algo positivo.
Fonte: The Conversation.
Rafael Almeida é um buscador da espiritualidade e do autoconhecimento, dedicado há mais de uma década a estudar, praticar e viver experiências que promovem a expansão da consciência. Criador do blog Digital Pensar, compartilha reflexões, vivências e aprendizados que unem práticas ancestrais, desenvolvimento interior e a espiritualidade aplicada no dia a dia, sempre com o propósito de inspirar pessoas a se reconectarem com sua essência.

