O que dizem a Bíblia, o Alcorão e a Torá sobre a justificativa para a guerra?
Guerras frequentemente são travadas em nome da religião. Mas o que dizem os textos fundamentais do Cristianismo, do Islã e do Judaísmo sobre a justificativa para a guerra?
Consultamos três especialistas para conhecer suas opiniões.
A Bíblia
A Bíblia retrata a guerra como uma realidade inevitável da vida humana. Essa ideia aparece no lamento do autor de Eclesiastes:
“há tempo para tudo […] tempo de guerra e tempo de paz.”
Nesse sentido, a Bíblia reflete as vivências dos autores e das comunidades que, ao longo de mais de mil anos, registraram suas experiências de vitórias e derrotas enquanto povo pequeno cercado por grandes impérios do antigo Oriente Próximo.
Quanto ao papel de Deus na guerra, é impossível ignorar a violência problemática atribuída ao divino. Em certos momentos, Deus ordena que o povo hebreu entre em guerra e cometa atos extremamente violentos. Um exemplo claro é Deuteronômio 20: o povo de Deus é enviado ao combate com a bênção do sacerdote, mas deve primeiro propor termos de paz. Se a cidade aceitar, será submetida à escravidão. No entanto, determinados inimigos são considerados indignos de qualquer acordo — nesse caso, o exército hebreu é instruído a exterminar completamente todos os seres que não produzam alimento.
Em outras ocasiões, a guerra é interpretada como um instrumento de punição: Deus utiliza nações estrangeiras contra o povo hebreu quando este se desvia de seus caminhos (Juízes 2:14). Também é possível identificar uma ética subjacente quanto ao tratamento justo dos prisioneiros de guerra. Moisés ordena que as mulheres capturadas em batalhas sejam tratadas como esposas, e não como escravas (Deuteronômio 21), e em 2 Crônicas, os cativos são autorizados a voltar para casa.
Em contraste com a guerra autorizada por Deus, muitos profetas hebreus anunciam a esperança de um tempo em que o Senhor trará a paz, e as pessoas “não aprenderão mais a guerrear” (Miqueias 3:4), transformando suas armas em instrumentos agrícolas (Isaías 2:4).
A guerra é vista como consequência da pecaminosidade humana — algo que Deus, um dia, converterá em paz. E essa paz (em hebraico: shalom) vai além da simples ausência de conflito: representa o florescimento humano e a união entre os povos e Deus.
A maior parte do Novo Testamento foi escrita no primeiro século d.C., período em que judeus e os primeiros cristãos eram uma minoria sob o domínio do Império Romano. O poder militar de Roma é fortemente criticado como maligno em textos de resistência, como o Livro do Apocalipse. Muitos cristãos primitivos se recusaram a servir no exército romano.
Nesse cenário, Jesus não faz declarações diretas sobre a guerra, mas rejeita a violência de forma geral. Quando o discípulo Pedro tenta defendê-lo com uma espada, Jesus o repreende, dizendo para guardar a arma, pois a espada apenas gera mais violência (Mateus 26:52). Essa atitude está em harmonia com outros ensinamentos de Jesus, como “bem-aventurados os pacificadores” e suas instruções para “dar a outra face” diante da agressão ou “amar os inimigos”.
A verdade é que a Bíblia contém diferentes ideologias sobre a guerra. Se alguém busca justificativa para a guerra, é possível encontrá-la ali. Se procura argumentos em favor da paz ou do pacifismo, também os encontrará. As doutrinas cristãs posteriores sobre “guerra justa” ou pacifismo foram desenvolvidas a partir de princípios bíblicos, mas não estão explicitamente formuladas nas Escrituras.
Para os cristãos, os ensinamentos de Jesus oferecem uma base ética para reinterpretar os textos de guerra do Antigo Testamento à luz do amor aos inimigos. Essa contraposição à violência e à guerra atribuídas a Deus remete novamente aos profetas, cujas visões esperançadas apontam para um mundo sem sofrimento ou violência, em que a paz se torna possível.
O Alcorão
O Islã e os muçulmanos surgiram no cenário mundial em um ambiente hostil do século VII. Diante de grandes desafios, incluindo conflitos armados, o Islã introduziu reformas jurídicas e éticas inovadoras. O Alcorão e o exemplo do profeta Maomé estabeleceram diretrizes claras, tanto legais quanto morais, sobre a condução da guerra — muito antes que estruturas semelhantes aparecessem em outras sociedades.
Uma das formas pelas quais o Islã fez isso foi ao introduzir o termo “jihad”, em vez da palavra árabe comum para guerra, “harb”. Enquanto harb se refere de maneira ampla a combates, jihad foi definido dentro dos ensinamentos islâmicos como uma luta legal e moralmente justificada — que pode incluir, mas não se limita ao conflito armado. No contexto da guerra, jihad significa lutar por uma causa justa, seguindo princípios legais e éticos claros, e não fazer guerra de forma agressiva ou beligerante.
Entre os anos 610 e 622, o profeta Maomé praticou a não-violência ativa diante do sofrimento constante, da perseguição e do embargo econômico que ele e seus seguidores enfrentaram em Meca, mesmo com insistentes pedidos para que adotassem a luta armada. Isso demonstrou que o combate armado não pode ser iniciado dentro da mesma sociedade, pois levaria à anarquia.

Após deixar sua cidade natal para escapar da perseguição, Maomé fundou em Medina uma sociedade pluralista e multi-religiosa. Ele tomou medidas ativas para firmar tratados com as tribos vizinhas. Embora adotasse uma estratégia intencional de paz e diplomacia, os inimigos de Meca e suas tribos aliadas atacaram os muçulmanos em Medina. Envolver-se em uma luta armada contra esses agressores tornou-se inevitável.
A permissão para combater foi concedida aos muçulmanos pelos versículos do Alcorão 22:39-40:
Aos crentes contra os quais se trava guerra é concedida permissão para lutar em resposta, pois foram injustiçados. Certamente, Deus tem pleno poder para ajudá-los a alcançar a vitória. Aqueles que foram expulsos de sua terra natal injustamente, apenas por dizerem: “Nosso Senhor é Deus” […]
Esse trecho não apenas autoriza a luta armada, como também apresenta uma justificativa moral para a guerra justa. Ou seja, a guerra é claramente legítima quando é defensiva — já a agressão é injusta e condenada. Em outras passagens, o Alcorão reforça essa ideia:
Se eles se retirarem de você, não lutarem contra você e oferecerem paz, então Deus não permite que você lhes faça guerra.
O versículo 22:39 apresenta duas justificativas éticas para a guerra. A primeira ocorre quando pessoas são expulsas de suas casas (e terras) — ou seja, em situações de ocupação por uma potência estrangeira. A segunda é quando indivíduos são atacados por causa de suas crenças, sofrendo perseguição e violência.
É importante destacar que o versículo 22:40 menciona igrejas, mosteiros e sinagogas. Caso os fiéis não se defendam, todos os locais de culto seriam destruídos, razão pela qual sua proteção pode ser garantida pela força, se necessário.
O Alcorão não permite a agressão, pois “Deus não ama os agressores” (2:190). Também estabelece regras detalhadas sobre quem deve combater e quem está isento (9:91); quando os hostilidades devem cessar (2:193); e orienta que prisioneiros devem ser tratados com humanidade e justiça (47:4).
Versículos como o 2:294 reforçam que a guerra e qualquer resposta à violência e agressão precisam ser proporcionais e respeitar limites:
Quem quer que te ataque, ataque-o da mesma forma como foi atacado. Contudo, tema a Deus e mantenha-se dentro dos limites.
Em caso de guerra inevitável, deve-se buscar todas as oportunidades para encerrá-la:
Mas se o inimigo se inclinar à paz, então vocês também devem se inclinar à paz e confiar em Deus.
O objetivo da ação militar é encerrar os conflitos e eliminar as causas da guerra, não humilhar ou destruir o inimigo.
O jihad militar não pode ser motivado por ambição pessoal nem para alimentar disputas nacionalistas ou étnicas. Os muçulmanos não podem declarar guerra contra nações que não lhes são hostis (60:8). Contudo, caso haja hostilidade aberta e ataques, os muçulmanos têm o direito de se defender.
O Profeta e os primeiros califas advertiram especificamente os líderes militares e combatentes para que não agissem com traição, nem praticassem assassinatos indiscriminados ou saques. Ele disse:
Não matem mulheres, crianças, idosos ou doentes. Não destruam palmeiras nem queimem casas.
Por causa desses ensinamentos, os muçulmanos contaram, ao longo da maior parte da história, com diretrizes legais e éticas para ajudar a limitar o sofrimento humano causado pela guerra.
A Torá
É importante destacar que o desprezo pela guerra é tão grande que o rei Davi não recebeu permissão para construir o templo em Jerusalém devido à sua carreira militar. Essa tarefa foi atribuída a seu filho, Salomão, mas nenhuma ferramenta de ferro poderia ser usada na construção, pois o ferro simbolizava guerra e violência, enquanto o templo deveria representar a paz, a virtude ideal.
A visão de paz para toda a humanidade é ainda mais aprofundada nos escritos proféticos e no conceito do Messias. Isso fica claro especialmente nas palavras do profeta Isaías, que imaginou uma era em que, conforme sua visão idealizada:
“Eles transformarão suas espadas em arados e suas lanças em foices; nação nenhuma levantará espada contra outra, nem mais aprenderão a guerrear.”
A Mishná, a primeira parte do Talmud, introduz o conceito de “guerra obrigatória” (milhemet mitzvah). Essa categoria engloba as guerras bíblicas contra as sete nações que habitavam a Terra Prometida, a guerra contra Amaleque e as guerras defensivas do povo judeu. Trata-se, portanto, de uma classe claramente definida e reconhecível.

Já a segunda categoria, a “guerra permitida” (milhemet reshut), é mais aberta e, como observa o estudioso Avi Ravitsky, “pode se referir a uma guerra preventiva”.
Após o período talmúdico, que terminou no século VII, esse debate tornou-se mais teórico, pois os judeus da Palestina e da diáspora já não possuíam exército. Isso ocorreu principalmente após a derrota da Revolta de Bar Kokhba contra os romanos (132–135 d.C.), com exceção de alguns pequenos reinos judeus na Arábia.
No entanto, com o retorno dos primeiros pioneiros sionistas à Terra de Israel, entre os séculos XIX e XX, os debates rabínicos sobre o que configura uma guerra obrigatória e defensiva, uma guerra permitida e as características de uma guerra proibida foram reacendidos. Esse tema gera profunda preocupação e controvérsia tanto entre acadêmicos quanto rabinos nos dias atuais.
Fonte: The Conversation.
Rafael Almeida é um buscador da espiritualidade e do autoconhecimento, dedicado há mais de uma década a estudar, praticar e viver experiências que promovem a expansão da consciência. Criador do blog Digital Pensar, compartilha reflexões, vivências e aprendizados que unem práticas ancestrais, desenvolvimento interior e a espiritualidade aplicada no dia a dia, sempre com o propósito de inspirar pessoas a se reconectarem com sua essência.

