Os americanos estão comprando mais Bíblias. O que isso revela sobre o cristianismo nos Estados Unidos?
Desde que Johannes Gutenberg inventou a prensa, o livro mais vendido do mundo tem sido a Bíblia — superando outros por bilhões de cópias, segundo alguns registros de vendas. E, recentemente, ela voltou a ganhar destaque. As vendas de Bíblias nos Estados Unidos cresceram 20% em relação a 2023, de acordo com o monitor do setor editorial Circana. Neste ano, o aumento já chega a mais 14%.
Isso representa 18,4 milhões de exemplares vendidos apenas em 2025, até o momento.
Editoras afirmam ter percebido um crescimento nas discussões sobre religião, impulsionado em parte por figuras políticas que expressam abertamente sua fé. Elas também apontam que a ansiedade e o estresse provocados pelo bombardeio constante de notícias e conteúdos online fazem com que as pessoas busquem conforto e respostas mais profundas.
“[O aumento nas vendas] é um crescimento real em relação, pelo menos, aos últimos anos. E o que o torna interessante é que parece estar se mantendo,” afirma Amy Simpson, editora da divisão de Bíblias da Tyndale House Publishers. “O que estamos vendo aqui parece, de fato, algo genuíno.”
“Há também outro fenômeno interessante acontecendo ao nosso redor, especialmente no espaço público: uma maior abertura das pessoas para respostas espirituais — e, em particular, para a Bíblia,” acrescenta ela.
“Estamos observando um aumento na curiosidade espiritual”, escreve um porta-voz da HarperCollins Christian Publishing, “assim como um aprofundamento da espiritualidade.” Segundo a editora, há “novos leitores ou compradores de primeira viagem motivados pela preocupação com os acontecimentos atuais, buscando respostas para perguntas sobre a vida e a morte, o presente e o futuro.”
Entre as Bíblias mais vendidas estão as chamadas “Bíblias temáticas” ou “de estudo”, que trazem guias, páginas interativas e espaços para anotações pessoais, em contraste com as “Bíblias de texto”, que contêm apenas a tradução. Nas redes sociais como TikTok, Instagram e YouTube, vídeos ensinam passo a passo como estudar a Bíblia. Algumas edições vêm acompanhadas de marcadores coloridos e blocos adesivos.
Há também versões direcionadas a públicos específicos, como a nova Bíblia da Lifeway Christian Resources para crianças e leitores com dislexia. Outra edição, a “God Bless the USA Bible” (não publicada pela Lifeway), conta com o endosso do ex-presidente Donald Trump e inclui cópias de documentos fundadores dos Estados Unidos.
As Bíblias temáticas estão “superando as Bíblias de texto”, afirma Andy McLean, editor de Bíblias e referências da Lifeway, responsável pela publicação da Christian Standard Bible.
O interesse crescente por esse tipo de edição pode indicar, de forma indireta, que a religião está se tornando cada vez mais parte de uma economia de mercado, observa Christian Smith, professor da Universidade de Notre Dame, à medida que diferentes denominações “competem” pela atenção dos fiéis.
Ainda não está totalmente claro quem está impulsionando essas vendas, ou se elas vêm de pessoas que já se identificam como cristãs. No entanto, “temos observado alguns compradores de primeira viagem”, especialmente entre as gerações mais jovens, diz McLean.
A Tyndale, proprietária da tradução New Living Translation, também acredita que a Geração Z está contribuindo para esse crescimento, afirma Amy Simpson. Segundo ela, as vendas estão bem distribuídas entre diferentes categorias, incluindo compras feitas tanto por indivíduos quanto por instituições.
Dos podcasts aos bancos da igreja?
Muitos líderes religiosos e comunidades de fé esperam que o aumento nas vendas de Bíblias seja um sinal de um renascimento espiritual. Esse crescimento ocorre em um momento em que as reproduções de músicas cristãs no Spotify e os downloads de aplicativos religiosos estão em níveis recordes — formatos que, até pouco tempo atrás, eram limitados ou inexistentes. Os podcasts cristãos também vêm crescendo em número.
No entanto, o interesse por diferentes formas de mídia não significa necessariamente mais pessoas ocupando os bancos das igrejas. E a maioria dos estudos ainda aponta uma constância em áreas-chave: a afiliação religiosa nos Estados Unidos continua em declínio, e a Geração Z permanece como a menos religiosa de todas, sem exceções.
Cerca de 43% dos membros da Geração Z em 2024 se identificaram como “sem religião” — ou seja, sem qualquer afiliação religiosa — de acordo com o General Social Survey, considerado por muitos pesquisadores o padrão de referência em dados sobre religião. Esse é o maior percentual de “sem religião” entre todas as gerações.
“O espírito do tempo aponta para um avivamento religioso neste momento”, afirma Ryan Burge, cientista político e autor do Substack Graphs About Religion. “Mas os dados não mostram isso.”
Ainda assim, muitas pessoas de fé veem sinais que lhes dão esperança. Em alguns casos, pode se tratar do desejo dos que já são religiosos de se comprometerem ainda mais. Uma parcela significativa — cerca de 63% dos adultos americanos — se identifica como cristã, e muitos indivíduos, líderes religiosos e instituições expressam abertamente a intenção de aprofundar sua fé.
“A ideia de que estamos nos tornando menos religiosos — eu quero perguntar: o que exatamente isso significa? Porque as pessoas que permanecem fiéis estão, na verdade, mais religiosas”, observa o Dr. Burge.
“Muitos são atraídos por religiões mais rígidas porque apreciam as regras, a estrutura, o senso de comunidade — e porque essas tradições se distanciam claramente da cultura dominante”, explica ele. Esse pode ser, em sua visão, um dos motivos pelos quais a filiação evangélica vem crescendo novamente — atualmente 19,5% dos americanos — após atingir seu ponto mais baixo em 2021. Em contraste, as denominações protestantes históricas continuam em queda constante.
Diversos grupos de inspiração religiosa têm registrado crescimento em seus quadros de membros, incluindo o Students for Life, que adota uma declaração de fé cristã. A organização viu um aumento significativo nas adesões após o assassinato do ativista conservador Charlie Kirk, em setembro. “A paixão das pessoas está crescendo, e o engajamento também”, afirma Kristi Hamrick, vice-presidente de mídia e políticas públicas do grupo.
Segundo Hamrick, os jovens estão buscando viver de acordo com seus valores, algo que se reflete em pesquisas mostrando que eles valorizam trabalhos com propósito. Além disso, movimentos de avivamento continuam a acontecer em campi universitários, às vezes em grande escala — como o encontro realizado na Asbury University, em Kentucky, em 2023, que durou duas semanas.
Entre os que se juntam ao Students for Life, Hamrick percebe um forte desejo de servir aos outros de maneiras práticas e concretas, traduzindo sua fé em ações voltadas ao bem comum.
“Eu diria que [a religião] está em ascensão. Acho que é preciso cavar um pouco para perceber essa corrente subterrânea”, afirma Hamrick.
O Dr. Smith, por outro lado, acredita que ainda são necessários mais dados antes de se falar em um verdadeiro avivamento.
“Ouvi muitos rumores e um pouco de evidência sobre um suposto, talvez, renascimento religioso ou um aumento do interesse pela religião”, diz o Dr. Smith, que também é diretor do Center for the Study of Religion and Society da Universidade de Notre Dame.
“Sou bastante cético”, acrescenta. “Antes de fazermos grandes afirmações, precisamos de dados muito mais consistentes.” Ele destaca ainda que, no caso da Geração Z, ainda não há informações suficientes para tirar conclusões sólidas sobre as tendências dessa geração ao longo do tempo.
Ainda assim, faz sentido que aqueles que permaneceram na religião sejam mais devotos. “Os que permanecem firmes tendem a ser mais comprometidos, mais sérios e, em alguns casos, mais sectários”, afirma ele. “É um efeito residual — não um aumento real de comprometimento.”
“Isso sugere algo.”
Assim como o Students for Life, o programa cristão de formação de lideranças American Heritage Girls também registrou um “crescimento notável” nos últimos anos, escreveu Rachael Culpepper, diretora executiva da organização, em um e-mail ao Monitor. “As famílias estão em busca de uma comunidade autêntica que reflita seus valores cristãos.”
O interesse por escolas religiosas também tem aumentado. A LifeWise Academy, um programa que colabora com pais e igrejas para oferecer aulas bíblicas a estudantes durante o horário escolar, já está presente em mais de 300 distritos educacionais.
Recentemente, houve um aumento na procura, afirma Joel Penton, CEO da instituição. “As pessoas estão percebendo que é preciso ter uma base sólida para a vida.”
Embora haja igrejas e programas religiosos em expansão, esses sinais — assim como o aumento nas vendas de Bíblias — ainda não se refletem claramente nos dados. O Dr. Burge adota uma postura cautelosa ao interpretar o que esse crescimento pode significar. Ele questiona quem exatamente está comprando as Bíblias e se essas pessoas mantêm outros hábitos religiosos.
“É um número interessante, e ele sugere algo,” afirma.
Fonte: CS Monitor.
Rafael Almeida é um buscador da espiritualidade e do autoconhecimento, dedicado há mais de uma década a estudar, praticar e viver experiências que promovem a expansão da consciência. Criador do blog Digital Pensar, compartilha reflexões, vivências e aprendizados que unem práticas ancestrais, desenvolvimento interior e a espiritualidade aplicada no dia a dia, sempre com o propósito de inspirar pessoas a se reconectarem com sua essência.

