Repressão da China a igrejas não registradas causa indignação nos Estados Unidos.

Repressão da China a igrejas não registradas causa indignação nos Estados Unidos.

A detenção do fundador e dos seguidores da Igreja Sião evidencia a intolerância de Pequim em relação à liberdade religiosa.


Uma repressão chinesa a uma importante igreja cristã criou um novo ponto de tensão nas relações entre Washington e Pequim, destacando a intolerância do país em relação à liberdade religiosa.

Na semana passada, a China prendeu mais de 20 membros da Igreja Sião, uma das maiores redes cristãs não registradas do país, incluindo seu fundador e pastor principal, Ezra Jin — também conhecido como Jin Mingri —, segundo informações de um pastor da própria igreja e de Grace Jin Drexel, filha de Jin. Um pequeno número de detidos já foi libertado.

As prisões provocaram uma resposta imediata do secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, que pediu a libertação dos fiéis e afirmou que a repressão “demonstra ainda mais como o Partido Comunista Chinês manifesta hostilidade contra cristãos que rejeitam a interferência do Partido em sua fé”.

A mais recente ação de Pequim representa uma escalada em sua campanha de anos para desmantelar grandes redes religiosas — muitas das quais migraram para o ambiente online durante a pandemia — e restringir os cultos não registrados a pequenas cerimônias privadas.

No mês passado, o presidente chinês Xi Jinping declarou que as religiões devem “se adaptar ainda mais ao contexto chinês”, ao mesmo tempo em que defendeu “melhores políticas e estruturas” e uma “aplicação mais rigorosa da lei”. As autoridades também divulgaram diretrizes que proíbem a pregação online, exceto para igrejas e templos oficialmente autorizados.

Repressão da China a igrejas não registradas causa indignação nos Estados Unidos.

“É o fim de uma era de enorme crescimento do protestantismo”, afirmou Ian Johnson, autor de The Souls of China: The Return of Religion After Mao.

Embora a religião tenha sido severamente restringida na China sob o governo de Mao Tsé-tung, sua prática cresceu desde a morte do líder em 1976. O Estado busca exercer um controle rigoroso sobre o culto religioso e reconhece oficialmente apenas o budismo, o taoismo, o catolicismo, o protestantismo e o islamismo. Todos os grupos religiosos devem estar vinculados a associações aprovadas pelo governo.

O número de cristãos no país é difícil de estimar com precisão, em parte porque muitos fiéis participam de igrejas domésticas não registradas e não reconhecidas pelo Estado. Além disso, é comum que os praticantes misturem crenças, combinando elementos da fé cristã com outras tradições religiosas.

De acordo com uma pesquisa do Pew Research Center, cerca de 1% dos adultos chineses se identificavam como cristãos em 2021.

No final da década de 2010, o culto cristão não registrado havia crescido, com grupos como a Igreja Sião e a Igreja do Pacto da Primeira Chuva realizando cultos regulares em Pequim e na cidade de Chengdu, no sudoeste da China, respectivamente.

Em 2018, a China prendeu 100 membros da Igreja do Pacto da Primeira Chuva, incluindo seu líder, Wang Yi, um crítico declarado de Xi Jinping. As autoridades também fecharam o templo da Igreja Sião em Pequim depois que a congregação se recusou a instalar câmeras de vigilância.

Foi às vésperas dessa repressão que Ezra Jin retornou dos Estados Unidos à China, onde foi brevemente detido e proibido de deixar o país, segundo sua filha.

Embora a repressão tenha empurrado a Igreja Sião ainda mais para a clandestinidade, ela também a levou a adotar um modelo mais descentralizado e online, explicou Jin Drexel. Esse formato ganhou força durante a pandemia de Covid-19, expandindo o alcance da igreja para mais de 40 cidades e mais de 10 mil seguidores.

Atualmente, a igreja divulga seus ensinamentos religiosos pela internet, por meio de vídeos que frequentemente acumulam milhares de visualizações. “Acredito que a administração atual esteja dizendo que não impedirá as pessoas de cultuar em casa com alguns amigos, mas não permitirá que estruturas do tipo sociedade civil se enraízem na China”, afirmou Johnson.

Francesco Sisci, especialista em cristianismo na China radicado em Roma, afirmou que o momento das detenções foi uma forma de enviar uma mensagem aos Estados Unidos. Grace Jin Drexel trabalha no Senado americano, e seu marido, Bill Drexel, atua no Hudson Institute, em Washington.

“A China está exercendo muita pressão sobre os Estados Unidos”, disse Sisci, destacando que o momento das detenções coincidiu com o anúncio de Pequim de medidas “em grande escala” para controlar o fornecimento de metais raros. “Para mim, essa ação contra a Igreja Sião faz parte do mesmo movimento… Há muitas igrejas protestantes na China. Eles simplesmente escolheram essa.”

Bill Drexel afirmou que Pequim pode estar vendo os membros detidos da igreja como uma forma de “obter vantagem” nas relações com os Estados Unidos.

O Ministério da Segurança Pública da China não respondeu imediatamente a um pedido de comentário. Já o Ministério das Relações Exteriores declarou que o país “protege a liberdade de crença religiosa de seus cidadãos” e “se opõe firmemente à interferência dos EUA nos assuntos internos da China sob o pretexto de questões religiosas.”

Fonte: Financial Times.