Ser verdadeiramente cristão ainda significa amar o seu próximo.
Em maio de 1965, o renomado teólogo jesuíta alemão Pe. Karl Rahner fez uma palestra em um evento promovido pela organização beneficente Katholische Fürsorgeverein für Mädchen, Frauen, und Kinder (“Associação Católica de Assistência para Meninas, Mulheres e Crianças”, hoje conhecida como Serviço Social das Mulheres Católicas) em Colônia, na Alemanha. Sua fala seria posteriormente publicada com o título “Reflexões sobre a Unidade do Amor ao Próximo e do Amor a Deus”, que se tornaria um de seus ensaios mais conhecidos.
Apesar da escrita teológica densa e do vocabulário acadêmico técnico de Rahner, o ponto central de seu argumento é bastante simples: o amor a Deus e o amor ao próximo estão essencialmente unidos e não podem ser compreendidos separadamente.
Essa ideia não é nova — como o próprio Rahner ressalta —, pois está fundamentada em diversas passagens das Escrituras, tanto nos Evangelhos Sinópticos quanto no Evangelho de João, e também nas cartas do Novo Testamento. Rahner deixa claro logo no início de seu texto que a verdade do Evangelho está, essencialmente, no amor ao próximo.E isso não deveria causar surpresa, já que esse é o tema central da pregação de Jesus, especialmente em suas parábolas e em todo o seu ministério terreno.
Tenho refletido bastante sobre o ensaio de Rahner, escrito há sessenta anos, desde a publicação da exortação apostólica Dilexi Te, “Sobre o Amor aos Pobres”, do Papa Leão XIV, divulgada no início deste mês. Em muitos aspectos, tanto a exortação de Leão quanto o ensaio de Rahner afirmam o mesmo ponto simples e radical.
E ainda assim, apesar de sua clareza e objetividade, a recepção de ambos os textos tem sido mista. Suponho que isso não deva causar surpresa, considerando que a clareza e a franqueza de Jesus também nem sempre foram bem recebidas ao longo dos séculos — inclusive por aqueles que se identificam como cristãos. Esse é um ponto que Leão aborda diretamente logo no início da exortação:
Os cristãos também, em diversas ocasiões, cederam a atitudes moldadas por ideologias seculares ou por abordagens políticas e econômicas que conduzem a generalizações grosseiras e conclusões equivocadas. O fato de alguns desprezarem ou ridicularizarem as obras de caridade — como se fossem uma obsessão de poucos e não o coração ardente da missão da Igreja — convence-me da necessidade de retornar ao Evangelho e lê-lo novamente, para que não corramos o risco de substituí-lo pela sabedoria deste mundo. Os pobres não podem ser esquecidos se quisermos permanecer dentro da grande corrente vital da Igreja, cuja fonte está no Evangelho e que produz frutos em todo tempo e lugar.
O papa é absolutamente claro sobre esse ponto central do cristianismo — aquilo que ele chama de “o coração ardente da missão da Igreja” — e que se concentra no amor ao próximo, especialmente no cuidado com os pobres e os vulneráveis. Aqueles que não reconhecem essa verdade ou que escolhem, de alguma forma, suavizar ou relativizar esse mandamento do Evangelho não vivem o cristianismo autêntico.

Para Rahner, o amor ao próximo não é apenas uma expectativa de caridade cristã, mas parte essencial do que significa ser plenamente humano. Ele escreve: “O ato de amor pessoal por outro ser humano é, portanto, o ato fundamental e abrangente do homem, que dá sentido, direção e medida a todas as outras coisas.” Esse amor pelos outros — incluindo e especialmente aqueles que estão fora do nosso círculo íntimo ou das comunidades que escolhemos — é a forma pela qual tornamos visível o amor de Deus neste mundo.
No Evangelho de João, Jesus resume isso de modo direto: “Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Assim como eu vos amei, amai-vos também uns aos outros.” E, para deixar clara a ligação entre essa prática no mundo e a nossa identidade cristã, ele acrescenta: “Nisto todos saberão que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns pelos outros” (João 13:34-35).
É profundamente preocupante observar a disseminação de uma espécie de pseudocristianismo, adotado tanto por figuras públicas quanto privadas, que reivindicam o nome e o título de “cristãos”, mas rejeitam esse princípio fundamental da fé.
Muitas pessoas que ocupam cargos políticos hoje — especialmente em nível federal — usam com frequência palavras como “fé”, “cristianismo” e “valores”, mas ao mesmo tempo apoiam práticas desumanizadoras que não apenas deixam de amar o próximo, como também causam grande dano e destruição.
Vemos isso nas operações do ICE (Serviço de Imigração e Controle de Alfândega) realizadas em grandes cidades dos Estados Unidos, a mando da atual administração presidencial. A brutalidade demonstrada, tanto em nível individual quanto coletivo, contradiz diretamente o cerne do cristianismo: o amor ao próximo. É um verdadeiro escândalo que o atual “czar da fronteira” do governo Trump, Tom Homan — que fala de forma depreciativa sobre os imigrantes e é o arquiteto assumido da crueldade do ICE — se identifique como católico.
Vemos isso também nos ataques contínuos ao funcionalismo público federal, iniciados com o DOGE (“Departamento de Eficiência Governamental”), que desmantelou escritórios e serviços essenciais, e continuando com o atual fechamento do governo, que já dura quase um mês. Muitos dos departamentos mais afetados por essas medidas são justamente aqueles voltados para ajudar os pobres e cuidar do próximo — basta pensar na USAID ou no Departamento de Educação, para citar apenas dois exemplos.
Os efeitos sobre os pobres e vulneráveis da sociedade se tornarão ainda mais graves em 1º de novembro, quando os benefícios do SNAP (conhecidos como food stamps), deixarão de ser distribuídos aos famintos por falta de recursos decorrente da paralisação do governo.
Como a Igreja Católica ensina claramente, o propósito de qualquer governo é proteger e promover o bem comum. E, como tanto o Papa Francisco quanto o Papa Leão têm nos recordado, podemos entender esse aspecto da doutrina social da Igreja como uma forma de “amar o próximo” em nível institucional e social. No entanto, há muitos que se autodenominam cristãos e que atuam de forma deliberada e ativa contra o bem comum.
Vemos isso também na forma como as comunidades LGBTQ+, especialmente pessoas transgênero e não binárias, têm sido alvo de ataques e perseguições. Negar sua existência e experiência, recusar-se a reconhecer sua realidade e história, e agir ativamente para transformá-las em bode expiatório ou tentar eliminá-las são atitudes não apenas pecaminosas, mas contrárias ao próprio ensinamento de Jesus sobre o amor ao próximo.
Jesus, como é bem conhecido, nunca impôs condições para definir quem é o próximo. Pelo contrário, suas parábolas mais impactantes invertem as expectativas dos ouvintes justamente para destacar a radicalidade do chamado de Deus ao amor universal.
Ao recordarmos a parábola do Bom Samaritano (Lucas 10:25-37) — usada pelo Papa Francisco em sua encíclica de 2020, Fratelli Tutti, “Sobre a Fraternidade e a Amizade Social” — podemos perceber, no comportamento do sacerdote e do levita descritos por Jesus, um reflexo de alguns líderes religiosos atuais que contribuem para o sofrimento, a discriminação e o dano vividos pela comunidade LGBTQ+. Nesse caso, justamente aqueles de quem se esperaria amor e compaixão, por seu compromisso público com o cristianismo, são os primeiros a passar ao largo sem colocar em prática o que dizem crer.
A lição essencial aqui é que ser cristão é muito mais do que apenas declarar isso com palavras. Exige ação concreta e uma vida marcada pela prática do amor ao próximo. Viver dessa forma é cumprir o maior mandamento, manifestar a chegada do Reino de Deus por meio de nossas atitudes e amar a Deus de maneiras tangíveis e práticas.
Ignorar esse mandamento divino — ou pensar que qualquer outra coisa tenha mais importância no cristianismo do que ele — é desviar-se ou rejeitar o núcleo da mensagem clara e simples de Jesus.
Aqueles que ainda têm dúvidas sobre a obrigação inegociável de amar o próximo — todos os próximos — deveriam seguir o conselho de Leão: “retornar ao Evangelho e lê-lo novamente, para que não corramos o risco de substituí-lo pela sabedoria deste mundo.”
Fonte: NCR.
Rafael Almeida é um buscador da espiritualidade e do autoconhecimento, dedicado há mais de uma década a estudar, praticar e viver experiências que promovem a expansão da consciência. Criador do blog Digital Pensar, compartilha reflexões, vivências e aprendizados que unem práticas ancestrais, desenvolvimento interior e a espiritualidade aplicada no dia a dia, sempre com o propósito de inspirar pessoas a se reconectarem com sua essência.

