Tyler Perry assume a história de “Rute e Boaz”
Em seu novo filme da Netflix, Rute é uma cantora, Boaz tem um MBA, e o vinho do Tennessee corre à vontade.
E se Rute e Boaz se encontrassem hoje e se apaixonassem, como seria?
Na releitura de Tyler Perry, a jovem cantora em ascensão Rute se muda para uma pequena cidade do Tennessee para cuidar de uma viúva e deixar para trás a cena musical de Atlanta. Lá, ela conhece Boaz (ou “Bo”), um rico proprietário de vinícola e ex-fuzileiro naval que serviu em duas missões no Afeganistão. Assim como acontece com o Boaz bíblico em sermões, estudos bíblicos e vídeos no YouTube sobre namoro, na tela Bo é retratado como o pacote completo: musculoso, gentil, generoso e atraente, com um MBA e uma carreira anterior em Wall Street. E, assim como na versão bíblica, o amor triunfa no final.
Rute & Boaz, da Netflix, é o primeiro filme de temática cristã lançado dentro de uma parceria de vários anos entre a plataforma de streaming, os estúdios de Tyler Perry e Devon Franklin, ministro cristão e palestrante motivacional da Califórnia. Coescrito por Mike Elliott (Brown Sugar) e Cory Tynan (Play’d), o longa se soma a uma recente onda de dramas bíblicos contemporâneos que têm chamado atenção — embora esta adaptação em especial provavelmente deixe o público com a sensação de querer algo mais.
Rute & Boaz começa com Rute (Serayah McNeill) e Noemi (Phylicia Rashad) se encontrando em circunstâncias pouco favoráveis. O filho de Noemi leva a mãe para assistir a uma apresentação de sua nova namorada, Rute, uma estrela em ascensão na cena do hip-hop em Atlanta. No entanto, durante o show, as danças sexualmente sugestivas de Rute, sua roupa reveladora e a peruca magenta acabam desagradando a sogra. Logo, o público descobre que a própria Rute também não aprecia as músicas que canta. Ainda assim, ela está presa a obrigações contratuais e desmotivada a sair por influência de sua amiga Breana, a outra integrante da dupla fictícia 404.
O caminho das duas se cruza novamente após uma tragédia: tanto o marido quanto o filho de Noemi morrem. Nesse mesmo período, Rute consegue romper seu contrato com o produtor e descobre uma sombria ligação entre as mortes dos homens e sua carreira musical. Enquanto isso, a viúva Noemi enfrenta sérias dificuldades financeiras, o que a obriga a retornar para sua cidade natal no Tennessee. Contra sua vontade inicial, Rute a acompanha. Já no interior, a jovem encontra emprego colhendo uvas na vinícola de Boaz.
A interpretação de Rashad como a enlutada e ressentida Noemi é o ponto alto do filme de aproximadamente 90 minutos, que, como outras produções de Tyler Perry, recorre a diversos clichês narrativos. A jovem Rute é apresentada como uma mulher fechada, que precisa reabrir o coração para o amor. Marcada por experiências difíceis do passado, ela inicialmente desconfia de Boaz e de suas tentativas de se aproximar. Sua resistência, porém, começa a diminuir à medida que descobre mais sobre o caráter dele.
Boaz (Tyler Lepley), como era de se esperar, é retratado sem defeitos e, na verdade, com conquistas em excesso, mesmo em comparação ao personagem bíblico justo e próspero. Em determinado momento, quando a Rute do filme lhe pergunta por que ele ainda não se casou, mesmo já estando perto dos 40 anos, ele responde que é “casado com a vinícola”, o negócio da família que passou a administrar após a morte do pai.
Para quem já conhece a obra de Tyler Perry, o filme deve soar relativamente familiar. Há cenas de romance teatrais (como uma mansão repleta de velas para o primeiro encontro de Rute e Boaz); momentos de drama exagerado (em certo ponto, a vinícola é incendiada); e até um toque de sensualidade (com mulheres admirando Boaz sem camisa enquanto ele faz reparos na casa de Noemi).
Muito se debate sobre o que a Bíblia quis dizer quando afirma que Rute “descobriu” os pés de Boaz. No filme, porém, Boaz tira os saltos de Rute para lavar seus pés antes de ambos pisarem em uvas para produzir vinho. Em seguida, eles se beijam. Mas Rute, temendo que seu passado possa atrapalhar o relacionamento nascente, foge dramaticamente da casa dele antes que as coisas avancem.
O roteiro de Rute & Boaz consegue evitar interpretações excessivamente liberais das Escrituras (por exemplo, os dois não têm relações sexuais antes do casamento). Ainda assim, a produção parece se preocupar demais em adaptar para o público moderno a questão de uma mulher se envolver com seu patrão.
Tal como no relato bíblico, Noemi incentiva o relacionamento. Rute, no entanto, mostra-se relutante em passar tempo com o homem que a contratou. Boaz, por sua vez, demonstra interesse, mas faz questão de enfatizar que não deseja “forçá-la” a nada.
Apesar de todo o esforço em tentar encaixar uma história antiga no nosso contexto moderno de normas de RH e de consentimento sexual, o filme também opta por não explorar alguns dos pontos mais importantes da narrativa bíblica — como o parente mais próximo que, pela lei, teria prioridade para redimir Rute.
Ainda assim, quem conhece a história bíblica é recompensado; esses espectadores têm mais chances de perceber correspondências entre personagens (Breana = Orfa) e locais (a cena musical de Atlanta = Moabe) do que o público secular. Essa sutileza valoriza um público familiarizado com a Bíblia, de forma surpreendente, considerando alguns dos clichês do filme.
Rute & Boaz reconhece que Deus atuou nos bastidores para unir os dois protagonistas românticos. Porém, sem o contexto histórico sobre casamento, terras e redenção — sem, de certa forma, todo o drama do Antigo e do Novo Testamento —, o cerne da história original fica ofuscado. O resultado final? Um filme leve e inspirador sobre dois cristãos encontrando o amor.
Fonte: Christianity Today.
Rafael Almeida é um buscador da espiritualidade e do autoconhecimento, dedicado há mais de uma década a estudar, praticar e viver experiências que promovem a expansão da consciência. Criador do blog Digital Pensar, compartilha reflexões, vivências e aprendizados que unem práticas ancestrais, desenvolvimento interior e a espiritualidade aplicada no dia a dia, sempre com o propósito de inspirar pessoas a se reconectarem com sua essência.

